Precisamos conversar, não brigar ou fechar os olhos

 

É preciso olhar a vida com firmeza e leveza e, a despeito das polarizações e desconstruções, construir e acreditar.

ROBERTA GONTIJO TEIXEIRA – Via de regra, quando vou escrever algo para o Jornal, tento me ater a assuntos locais, pessoais ou que alcancem, de alguma forma, Bom Despacho ou uma generalidade. Hoje gostaria de falar de um assunto que talvez pareça um pouco mais distante ou já obviamente espalhado aos quatro cantos.

O filme “Ainda Estou aqui”, do cineasta Walter Salles, levou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza, garantiu o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama para Fernanda Torres e trouxe para o Brasil o 1° Oscar da história como Melhor Filme Internacional. Um sucesso!

Assisti inúmeros depoimentos e relatos, tanto dos envolvidos no projeto, quanto dos espectadores.
Levei minha mãe a Belo Horizonte para aproveitarmos o final de semana e curtirmos o filme no cinema, não apenas pelo prazer do evento, mas também como forma de prestigiar e demonstrar nossa gratidão à cultura e ao cinema Brasileiro.

Claro, como tudo nesse País tem sido politizado, à revelia da realidade, vi vídeos e ouvi relatos negativos e agressivos contra o longa e não queria perder a oportunidade de dar minha opinião quanto a isso.

Vivemos um momento polarizado, fragilizado e de grandes desastres naturais, em decorrência das condições climáticas e da forma como lidamos com a natureza.

Atravessamos um momento de agressões e levantamento de bandeiras. Pouco conversamos e tentamos compor. Nos limitamos a defender ideologias. Muitos falam ao vento sobre coisas que desconhecem.

Desinformados repetem, como papagaio, frases tipo “é um absurdo a Lei Rouanet”, sem saber sequer como são suas regras e como elas funcionam. Por outro lado, os defensores às vezes mal escutam os argumentos e tecem uma narrativa também contundente. Via de regra, ofensiva. Esclarecimentos e diálogos raramente são alcançados na troca de farpas e defesa de ideias.

Num cenário como o de hoje, no Brasil e no mundo, que tem como pano de fundo um tecido social tão arredio, cheio de fake news e fragilizado pela polarização política, um filme com a sutileza de “Ainda Estou aqui” desponta. Fala sobre injustiça, ditadura, tortura e conta nossa história sem histeria, sem apontamento de dedos ou acusações. Narra fatos. Só. Conta a linda, triste e cheia de superação história de uma família que, silenciosamente, ante a tragédia se reinventou e gerou escritores, como Marcelo e profissionais e defensores de grandes direitos humanos, como a advogada Eunice Paiva.

Eles sobreviveram ao massacre a que foram submetidos. Se reinventaram em tempos sombrios.
Será que nós, também, enquanto comunidade, sobreviveremos e nos reinventaremos? Será que atravessaremos os retrocessos, as polarizações, as devastações ambientais e aprenderemos a nos comportar enquanto sociedade, enquanto seres e como civilização?

Às vezes, ante tantos desmontes, devastações e destruições, chego a duvidar.

Mas aí, caminho por uma estrada arborizada, dirijo até a margem de algum rio, converso com uma amiga, tomo um café quente com pão de queijo, ouço uma música linda e lembro de alguns trechos do filme “Soul” e da alminha 22 que descobre, através dos pequenos prazeres e detalhes, a beleza de viver nessa Terra.

Nos últimos tempos e, principalmente, após assistir ao filme dirigido por Walter Salles, me propus ser um pouco como Eunice. Tentar fazer o que puder no meu entorno. Olhar a vida com firmeza e leveza e, a despeito das polarizações e desconstruções, construir e acreditar.

Isso não quer dizer que quero fechar os olhos e não questionar. Cada vez que saio de Bom Despacho, passo perto do Caffé da Terra e olho para aquela exploração estranha que não sei se é de argila ou de areia, ao lado do Rio Capivari, que abastece a cidade, acho essencial me perguntar: de quem é aquilo? O que é exatamente? Que tipo de autorização foi dada para aquela exploração? Que estudos foram feitos antes da liberação e o quanto pode nos afetar? Que impactos ambientais tem por ser tão colado no Rio Capivari, nosso provedor de água? Talvez perguntar seja pouco e precisemos estabelecer conversas francas e esclarecedoras sobre esse e vários outros assuntos polêmicos. Sem o ar da guerra ou da acusação.

Precisamos conversar sobre nossas questões importantes e não brigar ou fechar os olhos para elas.

Novamente fico pensando no filme, que, sem mostrar sangue, violência, crises de histerias ou discussões acaloradas, traz à tona questões relevantes, como o que foi a ditadura militar no Brasil e porque até hoje não houve esclarecimentos ou punições para os crimes cometidos. Será porque um dos generais acusados pela morte de Rubens Paiva recebe do Estado, hoje, segundo o portal da transparência, um salário que gira em torno de R$ 35 mil e ostenta uma patente de marechal, considerada uma honraria voltada apenas a oficiais do Exército Brasileiro que tiveram atuação excepcional durante período de guerras? O filme não levanta essa questão, sequer fala sobre o tal general, mas a pergunta passa a pairar na nossa realidade.

Contudo, ainda que muitas perguntas surjam e sejam importantes, a verdadeira lição de tudo isso, pra mim, não é achar ou apontar culpados. É a possibilidade de conscientização da nossa história, de quem somos, do que fomos e que queremos nos tornar.

O ensinamento é que qualquer forma de opressão, ditadura, desmatamento, corrupção e polarização deve ser combatida e banida dos nossos atos coletivos e individuais. E, para isso, não precisamos ficar debatendo política, falando sobre assuntos dos quais desconhecemos e nos agredindo via digital e presencialmente. Só precisamos abrir os olhos para os acontecimentos que nos cercam e nos perguntarmos: o que está sendo feito aqui ou ali? Como posso ser mais participativo na escola e nos estudos dos meus filhos? O que faz e como age a administração pública local? Ou simplesmente, do que se trata aquela exploração ao lado do Caffé da Terra? Tenho certeza que a maioria, como eu, não sabe o que ou que efeitos terá.

Acho que, como o filme, queria fazer um convite a todos para que, sem agressões e acusações, abríssemos os olhos para a nossa história e a vida que nos cerca. Afinal de contas, “ainda estamos aqui” e precisamos cuidar desta Terra. (iBOM / Roberta Gontijo Teixeira / Imagem ilustrativa).

 

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