Língua da Tabatinga está mais famosa e me trouxe amizades
ALEXANDRE MAGALHÃES – Alguns a chamam de língua da Tabatinga, enquanto outros a chamam de dialeto da Tabatinga. De qualquer maneira, é uma forma de comunicação que marca o bairro bom-despachense. Ela tem sua origem em palavras tiradas de vários idiomas diferentes e que chegou ao Brasil via as pessoas que foram escravizadas na África e vendidas como animais carga em vários países do mundo.
Por causa deste crime, uma verdadeira vergonha para a humanidade, que durante quase quatrocentos anos perdurou especialmente nas Américas, a língua ou dialeto surgiu, fruto da mistura de várias línguas de povos diferentes trazidos ao Brasil. E sobreviveu em Bom Despacho, especialmente entre os moradores da Tabatinga.
Por causa de uma pergunta sobre essa língua no ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio – a população de Bom Despacho entrou em polvorosa. Desde a divulgação das perguntas da prova, em todos os lugares que vou, escuto pessoas comentando sobre a importância de Bom Despacho para o mundo. A maioria dos que ouvi falar sobre o tema, fala muito da cidade e menos da língua ou do bairro da Tabatinga. Parece-me que ao dizer que a questão é sobre Bom Despacho, ao invés de dizer que é sobre uma língua falada por descendentes de escravos, não nos remete ao crime original, que é a própria escravidão e a violência que trouxe as pessoas nascidas em outro continente, a África, para o Brasil. É uma forma de olhar o lado bom da fama da cidade, sem refletir sobre a origem do fenômeno.
É um pouco o que fazemos com os negros importantes brasileiros pelo mundo, como o Vini Jr., jogador do Real Madrid e da Seleção Brasileira de Futebol: o tratamos como brasileiro, sempre. A elite chama de brasileiro, pois o Vini Jr. é motivo de orgulho. Se não fosse famoso, o adjetivo brasileiro talvez não seria associado pela elite a um negro.
Conhecendo a Paré, falante da língua
Essa mesma pergunta do ENEM fez com que o PodBom – podcast do Jornal de Negócios – agendasse um episódio sobre o assunto. As convidadas para o debate foram a Paré, moradora da Tabatinga e falante da língua ou dialeto, e a Sônia Queiroz, doutora em estudos linguísticos. Sônia é autora do livro “Pé preto no barro branco”, cujo tema é a língua da Tabatinga, também chamada de Língua do Negro da Costa, pois os escravizados no interior da África eram levados para a costa africana, onde os barcos atracavam, entulhavam os porões de negros presos e acorrentados, e os transportava para os países que os compravam para trabalhar sem remuneração ou dignidade, às custas de muita violência física e sexual.
Fui convidado para participar do podcast como terceiro entrevistador, junto ao Alexandre Coelho e a Roberta Villela, ambos titulares da bancada do canal. ASSISTA AO PROGRAMA CLICANDO AQUI.
Apesar de a origem da língua ser muito pesada, o bate-papo foi extremamente agradável e esclarecedor. Reencontrei a Sônia, cujo livro eu já havia lido há alguns anos, e conheci a simpaticíssima Paré, uma pessoa adorável e muito querida na cidade e no bairro onde reside, a Tabatinga.
Chato que sou, foquei minha participação nos aspectos da língua da Tabatinga como instrumento de revolta dos negros e moradores do bairro contra a violência policial, a mando da elite, claro, sobre os falantes do dialeto. Também quis saber se existem formas de perpetuar a língua e o número de falantes ativos dela no município e no Brasil.
Depois de quase duas horas de papo com a Paré e a Sônia, aprendi muitos outros aspectos da língua e da história dela para Bom Despacho.
Espero que a cidade crie maneiras de incentivar novos falantes da língua e preserve esse patrimônio imaterial da cultura bom-despachense.
Eu saí feliz, pois revi a Sônia, cujo trabalho acadêmico é muito relevante, e ganhei mais uma amiga, a Paré, pessoa ímpar em Bom Despacho. (Portal iBOM / Alexandre Magalhães / Foto acima: Alexandre Magalhães, Roberta, Paré e Sônia Queiroz / Crédito: iBOM).