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Bom Despacho (MG), 22 de setembro de 2017

A Ritalina e a (hiper) medicalização nos dias de hoje

Publicado em 02/05/2015 10:10:51

FERNANDO BRANCO - É muito provável que você, leitor, já tenha ouvido falar da falar do TDAH. Também é provável que já tenha sido apresentado à Ritalina ou ao Concerta. Mas será que estamos verdadeiramente informados sobre esses medicamentos e sobre essa doença? 

O TDAH (transtorno de déficit de atenção/hiperatividade), segundo a doutrina médica, é uma doença em que o paciente (criança ou adulto) apresenta problemas com a atenção e o nível de atividade e impulsividade. Um distúrbio neurocomportamental capaz de causar uma série de complicações no aprendizado, na autoestima e no convívio com outras pessoas.

O diagnóstico do TDAH é atribuído ao psiquiatra norte-americano Leon Eisenberg, que faleceu em 2009, aos 87 anos de idade. Dizem que, em entrevista, sete meses antes de sua morte, Eisenberg teria dito que o TDAH “é um excelente exemplo de uma doença fictícia”. Coincidência ou não, na famosa série Breaking Bad o protagonista, professor de química que virou traficante de metanfetamina, adotou o pseudônimo Heisenberg.

Já a Ritalina e o Concerta, segundo a doutrina médica, são medicamentos indicados para o tratamento do TDAH. Tratam-se do estimulante “cloridrato de metilfenidato”, apelidado de a “droga da obediência”, que tem o mesmo mecanismo de ação das anfetaminas e da cocaína. Com seu poder de aumentar a concentração de dopaminas (neurotransmissor associado à nossa sensação de prazer) nas sinapses, o metilfenidato promete melhoria na concentração, diminuindo o cansaço, permitindo acumular mais informação em menos tempo.

Pois bem. Há tempos venho lendo artigos, inclusive estrangeiros, sobre o tema e percebi que há mistérios sobre o metilfenidato e sobre o TDAH. Demorei mais de um ano para decidir escrever esse texto, porque vi muita gente defendendo e muita gente contraindicando o uso desse medicamento. Parece coisa de filme americano, daqueles de espionagem em que nem o protagonista não sabe ao certo o que está buscando e onde vai dar a sua busca (como o pé de coelho do filme Missão Impossível).

Há muita contradição e falta de base científica sobre os bons e maus efeitos do metilfenidato. Há quem diga que a Ritalina “não funciona". Palavras da pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. “A gente corre o risco de fazer um genocídio do futuro. Mais vale a orientação familiar”. Para a pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, “o efeito de acalmar é sinal de toxicidade... Ele acalma pelo efeito zumbi, uma toxicidade.”

Eu li e reli artigos e não vi comprovação científica que algo falte ou sobre no cérebro de uma criança, ou adulto, com hiperatividade.

A falta de informação, aliada ao uso indiscriminado do metilfenidato, fez com que a venda de Ritalina crescesse 1615 % só na década passada (dados do Instituto de Defesa dos Usuários de Medicamentos). Há muito dinheiro envolvido nisso, é difícil saber quem está com mais ou menos razão, é preciso mais debate, mais pesquisa.

Segundo a ANVISA, o TDAH afeta 8 a 12% das crianças no mundo, sendo o motivo mais frequente de consulta nos serviços de saúde mental. Em adultos, segundo dados da Associação Brasileira de Déficit de Atenção (ABDA), o índice gira em torno de 4% (esses números variam de acordo com a região em que a pesquisa foi realizada). (mais dados in http://www.anvisa.gov.br/sngpc/boletins/2012/boletim_sngpc_2_2012_corrigido_2.pdf).   

Há, também, uma pesquisa realizada pela Universidade McMaster (Canadá) em que se concluiu que o TDAH possui uma variação de 0,1% a 20% de incidência. A variação decorre de valores culturais, pobreza, região geográfica, época, e, claro, conforme o profissional que está diagnosticando. Para se ter uma ideia, nos EUA, 9% das crianças foram diagnosticadas com TDAH, enquanto que na França a percentagem é inferior a 0,5%. Ou seja, o TDAH nem sempre é diagnosticado de forma científica.

Como se já nãos bastasse, a falta de informação tem levado jovens a usar esse medicamento como o impulsionador dos seus estudos. Estudantes e concurseiros desinformados, acreditando nos efeitos positivos desse medicamento e visando aprimoramento cognitivo, vêm fazendo uso indiscriminado do metilfenidato, sem orientação médica, o que agrava ainda mais o problema. Nas redes sociais é possível visualizar relatos sobre o seu uso, apelidado de “pílula da inteligência” ou “droga dos concurseiros”. 

Mas, convenhamos. É de se duvidar. Quando se fala em 5% a 10% de pessoas com determinado problema, não é preciso ser médico para concluir que estamos diante de um problema social, e não de uma doença. Na medicina, a não ser em casos de epidemia (que não é o caso da TDAH), uma doença atinge 1 por 100 mil habitantes, ou 1 para 1 milhão, dificilmente 5, 10, 20% da população. Por isso, pelos menos há de se fazer um alerta sobre o uso desses medicamentos.

É preciso informar aos pacientes que esses medicamentos, a longo prazo, podem causar dependência química, já que possuem o mesmo mecanismo de ação da cocaína, tanto que é classificada pela Drug Enforcement Administration como um narcótico (droga psicotrópica). 

Também é preciso informar dos diversos efeitos colaterais desses medicamentos, o que se pode buscar em um bom livro de Farmacologia. Alguns dos sintomas são surtos de insônia, sonolência, piora na atenção e na cognição, surtos psicóticos, alucinações, cefaleia, tontura, hipertensão, taquicardia, arritmia cardíaca, boca seca, dor no estômago, dor de cabeça, diminuição da secreção do hormônio de crescimento, aumento da pressão sanguínea, desordens psiquiátricas, redução do apetite, depressão, crise de mania, tendência à agressividade, morte súbita, efeito zombie like, dependência, etc. (dados da Food and Drug Administration – FDA e Anatomical Therapeutic Chemical - ATC).   

Por fim, é preciso lembrar que a sociedade sobreviveu milhares de anos sem esse medicamento, e provavelmente sobreviverá sem ele. É preciso lembrar que a doutrina médica indica a terapia comportamental como a primeira linha de tratamento. O medicamentoso vem em segundo lugar.  Primeiro a palmatória, depois a palmatória química.



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