iBOM | A estória de Nonô Cortado, o homem que enganou o Diabo



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Bom Despacho (MG), 21 de fevereiro de 2018

A estória de Nonô Cortado, o homem que enganou o Diabo

Imagem ilustrativa
Publicado em 30/01/2018 19:47:58

TADEU ARAÚJO - Nonô Cortado, aos 25 anos, vendera sua alma para o demônio. O trato entre ambos fora feito numa encruzilhada, lá nos soturnos das estradas da Garça ou do Falcão – não se sabe com precisão em que ponto. Foi numa meia-noite velha de uma sexta-feira escura. Nublada e sem lua.

Instruído pelo Estácio Feiticeiro, ele preparou e executou a cerimônia diabólica de compra e venda espiritual. Acendeu três velas pretas. Esparramou enxofre e pólvora dentro do desenho de “cinco salamão”, desenhado na poeira. Então pronunciou as palavras cabalísticas invocando o Cramunhão. Aí a pólvora explodiu. O enxofre fedeu e no meio do clarão surgiu, em forma de neblina, a figura do Coisa Ruim. Selaram então o trato. Nonô se tornaria dali em diante um homem muito rico. Combinaram que passados 40 anos, o Beiçudo viria buscar sua alma e levá-la-ia para junto dele. Lá nos infernos, no fogaréu eterno, onde se queimaria eternamente, entre choro e ranger de dentes.

O trato foi selado. Nada daquilo o assustava mais que a pobreza e desta ele ficaria livre para sempre. O Mofento deixou no chão ao seu lado um vidrinho com rolha. Dentro um mosquitinho preto, para carregar consigo. Ele seria seu guia de toda hora. Se precisasse de alguma coisa, era só destampar o vidro e falar que o bichinho o ajudaria.

Ele acreditou, pois não é que todos conheciam o acontecido com um usineiro de uma cidade perto de Bom Despacho. Ele também tinha seu diabinho num frasco de vidro e, de pobre que era, não se tornara um dos homens mais ricos da região, quiçá do Estado de Minas Gerais? Um amigo lhe contara que o usineiro era muito esperto. Ele dobrava o Tinhoso no papo. Ao completar-se o tempo do fim do contrato, este vinha buscá-lo. Ele então convencia-o a trocá-lo por um de seus empregados. “Quando trabalhei lá - disse-me esse amigo – de tempos em tempos, aparecia um pobre operário boiando nas tachas ferventes de melado. Isso era obra do fruto da negociação com o Pé-de-Pato.

A partir de então, a existência de Nonô Cortado mudou. Em pouco tempo era dono de fazendas. Mansões. Carros. Rodeado de mulheres bonitas, na vida que pedira a Deus, perdão, que pedira ao Diabo.

Porém o tempo é um menino travesso que voa mais rápido que o vento, que o raio, que um avião a jato. Quando Nonô deu conta, só faltavam 5 anos para o Arrenegado vir buscá-lo e jogá-lo nas tachas ferventes da geena. Ali sua alma ia queimar para sempre.

“Isso não vai dar certo”, pensou consigo o Nonô. Passava os dias apavorado. Tinha pesadelos e acordava madrugada velha, febril e molhado de suor.

Ele que nunca mais entrara em uma igreja, conforme prometera ao Rabudo, decidiu apelar para a religião. Um padre o advertiu severamente: “Você deve pegar tudo que tem e doar para os pobres. Volte a viver como antes, com um salário mínimo que seja. Reze muito, talvez o Senhor se compadeça de sua alma. Talvez o livre das garras de Lúcifer”.

Aquela proposta não serviu para Nonô, pois ele, apesar do desespero, tinha mais pavor da pobreza do que da própria condenação eterna.

Dias depois foi ter com um pastor. Esse lhe disse que se ele entregasse todo o dinheiro e todos os bens para sua Igreja, ele abençoaria aquela fortuna e desse modo sua alma seria salva.

Mais uma vez a volta à miséria... Ele não topou o que lhe propôs aquele homem de Deus.

Quem sabe, no espiritismo, ele encontrasse uma maneira de se livrar da condenação. Então um fervoroso espírita lhe explicou que de acordo com sua doutrina ele nada tinha a temer sobre o inferno.

“Deus, bom e misericordioso, não criou a mais perfeita, a mais bela, a mais genial de suas criaturas para depois deixá-la penando infinitamente no fogo eterno. Isso não. Jamais.“

O que aconteceria a ele, é que por seu pecado infame de negociar com o Anjo Mau, ele, depois de morrer, em sua seguinte reencarnação, voltaria à terra. E isso certamente como o mais miserável dos mendigos para poder purificar com muito sofrimento seus erros da vida passada.

Nonô riscou tal opção de seu caderno porque não desejava jamais para si viver como mendigo.

Próximo da mansão onde morava, havia um templo das Testemunhas de Jeová. Procurou um dos seus fiéis e quis saber dele como era a vida eterna pregada por eles. Explicou-lhe esse piedoso homem: “Rezam os nossos livros e a nossa crença que, ao morrermos, tudo se acaba temporariamente. Mas nos fins dos tempos, Jesus virá com todo o seu esplendor e ressuscitará os justos. Eles viverão na glória, no paraíso terrestre, abençoados pelo Criador. Já os maus não serão ressuscitados e mortos continuarão eternamente.

O nosso herói respirou aliviado. Bradou aleluias e mais aleluias. Decidiu: iria entrar para aquela seita. Assim, no final de sua vida terrena, como fiel seguidor de Jeová, não teria acerto nenhum com o Mafuá sardento, embora fosse continuar para sempre inexistente, morto.

Ainda não foi daquela vez, porém, que Nonô e sua alma vendida ao Cão Tinhoso se safariam da dívida assumida. Sua solicitação para fazer parte daquele grupo religioso foi negada, depois que seus anciãos descobriram sua negociação com Lúcifer, o inimigo de Jeová.

Ele não sabia para quem mais apelar. Entrou em pânico total.

De medo e pavor, quase enlouqueceu, o prazo de 5 anos para o acerto de contas infernal se aproximava rapidamente. Mas Nonô não ia desistir. Queimar em fogueiras e tachos de óleos ferventes... Sentir cheiro de enxofre queimando... Ser espetado constantemente com garfões de ferro pelos malignos... Perder os gozos celestiais junto de Deus... Isso não... E jurou pra si mesmo: “Isso não vai acontecer, nem que a vaca tussa... Nem que o boi dê leite... Nem que o cachorro aprenda a latir... Vou fazer o Maligno perder essa parada”.

Deu-se então que, por essa época, o Nonô desapareceu da cidade. Deu procuração a um filho dele para gerenciar todos os seus bens e sumiu, sem deixar notícias.

Passaram-se dois anos. Algum tempo depois sua família recebeu pela Internet do comando supremo do EI – o Estado Islâmico - o seguinte comunicado: “É com orgulho e piedade que lhes comunicamos que o Estado Islâmico ganhou mais um mártir em sua extensa galeria de santos guerreiros: Mustafá Said Kayan, o brasileiro Nonô Cortado Coelho, que se converteu ao Islã, morreu em combate, na Jihad, a guerra santa contra os infiéis, em Mossul, no Iraque.”

A data da morte de Nonô, revelada no comunicado do Estado Islâmico, coincidia com a data marcada para o Diabo vir buscar sua alma, segundo um documento secreto que ele confiara a um grande amigo. A recomendação era de que ele só poderia ser aberto após sua morte. Havia também uma determinação de que um vidrinho tampado, guardado no cofre, contendo um mosquitinho preso, devia ser jogado ao fogo e destruindo com o bichinho dentro.

Registrou-se que as últimas palavras de Nonô Cortado, quando caiu atingido pela explosão de uma bala de fuzil, fez um muque e berrou: - Aqui ó, procê, Coisa Ruim, Rabudo, Lúcifer, min’alma cê num leva, não. Já... já entrarei no paraíso de Alá, recebido por sete belas virgens, pois esse é o galardão de um islamita que morre lutando contra os infiéis na guerra santa.

Foi assim que, trágica e piedosamente terminaram os dias de Nonô Cortado Coelho, o único sujeito de que se tem notícia, nesse mundo, que um dia enganou o Capeta.

Tadeu Araújo é professor, escritor e fundador da ABDL



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