iBOM | Sô Mauro do Sintico e a minha meninice em Bom Despacho



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Bom Despacho (MG), 21 de fevereiro de 2018

Sô Mauro do Sintico e a minha meninice em Bom Despacho

Da esquerda para a direita estão Renata, Denise, Enedina, Lilian, Sandra e Alberto
Publicado em 26/01/2018 11:22:01

DENISE COIMBRA - Outro dia, recebemos em nossa casa, a visita do “Sô Mauro do Sintico.” Além de nos ofertar uma prosa agradável presenteou-nos com algumas espigas de milho. Durante a nossa conversa pude corrigir um erro na crônica anterior: Sr. Pedro Araújo era filho do Deco. Um dos irmãos dele é que era conhecido como “Zé do Deco”.

“Sô” Mauro foi embora sem saber o quanto eu havia apreciado o nosso encontro. Não tive tempo de dizer-lhe que a sua presença invocara em mim uma parte inesquecível da minha infância.

Durante vários anos, eu e meus irmãos íamos para o Campinho, perto de Luz, e ajudávamos ao “tio” Pedrinho e suas irmãs a colherem o milho. Em seguida faziam bolo, mingau, pamonha, cozinhavam e assavam o milho no fogão à lenha. Carinhosamente, eu era chamada por eles de “nigrinha” devido ao meu bronzeado oriundo da praia da Lajinha, da piscina do Batalhão e das margens do Rio São Francisco. Enquanto pescávamos, meu pai, transformado por nós numa espécie de Hamelin, tocava o cavaquinho, ao invés da flauta, cujo som trazia os graúdos peixes até os nossos anzóis e, claro, afastava qualquer mal que pudesse nos acontecer. Picada de cobra, afogamento por “congestão” eram o pavor de nossa mãe.

O orgulho que o Sô Mauro do Sintico sentia ao contar a sua vida que se confunde com a rica e bela história do Engenho do Ribeiro, despertou em mim a vontade de compartilhar os momentos incríveis que recordo de minha meninice.

Corríamos livres, leves e soltos pelos pastos da fazenda-casa do Marcílio, pelas terras do “Sô” Nego e ao fundo da Vila Gontijo. Apostávamos corrida em cima do muro estreito que rodeava a Vila Militar e fazíamos longas pedaladas até o Campo da Aviação só para subirmos numa antiga e enorme gameleira. Escondíamos o chinelo do menos esperto e repetíamos que fora o diabo ou alguma assombração que ali vivia. Só o devolvíamos em frente ao portão da casa do pequeno infeliz que vinha pedalando e chorando porque sabia que os pais o castigariam. Remorso? Já fiz as pazes com a criança que fui. Expliquei a ela que as lembranças dos velhos devem poéticas e belas. Ela entendeu. Combinamos então que contaremos para a velha senhora, que almejo ser dentro de algumas décadas, somente a parte alegre da sua história. Com isto, ela poderá contar empolgantes aventuras para aqueles que a ela visitarem, tal e qual o antigo morador do Engenho do Ribeiro.

Estar com o Sô Mauro do Sintico durante as minhas férias foi comovente e apaziguador.

Tal e qual o fio de Ariadne dado a Perseu para que ele não ficasse esquecido ou morto no labirinto do Minotauro, entendi que a recordação é o fio que tece o nosso viver numa recusa intermitente ao vazio do esquecimento que nos guia num aparente adiamento da morte.

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



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