iBOM | Viagem que embeleza e dá sentido especial ao nosso cotidiano



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Bom Despacho (MG), 21 de fevereiro de 2018

Viagem que embeleza e dá sentido especial ao nosso cotidiano

Imagem ilustrativa
Publicado em 17/01/2018 13:15:12

DENISE COIMBRA - Tenho o hábito de ler o livro “Os Filhos Dos Dias”, de Eduardo Galeano. São 366 relatos de acontecimentos a cada dia do ano, incluído o dia 29 de fevereiro, desde a Antiguidade até o presente. O relato do dia 11 de janeiro, em que escrevo esta crônica, traz a história de Juan Carlos Dávalos, um poeta que nasceu em Salto, na Argentina, em 1887. Juan fora o primeiro homem a pilotar um Ford T, o Ford Bigode, no norte da Argentina. Sempre que ia pelas estradas, o seu Ford T, “roncando e esfumaçando vinha tão lento que até as tartarugas paravam e esperavam por ele.” Um dia, um vizinho aproximou-se e preocupado comentou:

- “Mas, dom Dávalos... Desse jeito, o senhor não vai chegar nunca...” E ele explicou:

- “Eu não viajo para chegar. Viajo para ir.”

Ainda sob o efeito desta intrigante frase ouvi o telefone tocar. Era Regina que me convidava para ir à Fazenda Córrego D’Areia. Fomos. Lá, conheci o proprietário, o Sr. Pedro Araújo, filho do Zé do Deco.

Enquanto Regina alimentava os animais, Sr. Pedro alimentava a minha curiosidade. Eu queria saber o nome das árvores plantadas por ele e o que era mais prazeroso em seu trabalho. Além da sua história contou-me sobre o povoado do Picão e sobre a tecelagem na Fazenda do Juca Rufino. Infelizmente não existem mais.

Enquanto colhíamos carambolas e abacates, experimentei pitanga roxa, ácida e ligeiramente amarga tal e qual alguns acontecimentos vividos por mim e, certamente por ele, imaginei, mas sobre isso silenciamos.

Tomamos café com biscoito de queijo e bolo feitos pela Regina. “Conversa vai, conversa vem”, no balanço do tempo e dos acontecimentos quase identificamos um parentesco. Alegramos-nos. E eu já ansiava um novo encontro. Queria saber sobre o seu trabalho junto à ABAP de Bom Despacho e também provar da deliciosa paçoca que ele faz. As novidades foram anunciadas pelo filho no derradeiro minuto do nosso encontro.

Antes de nos despedirmos, Sr Pedro colocou o seu Fusca azul para funcionar. Lembrei-me logo de Juan Carlos com o seu Ford T e do meu pai com o seu Fusca amarelo. Não ousei perguntar por que ele mantinha um carro tão antigo lá. Todos temos os nossos relicários. Um legado ou teimosia em deixar registros de nossa existência ou marcas dos caminhos e estradas que percorremos.

De volta para casa, além das carambolas guardadas em minha mochila, trouxe comigo esta história. Neste dia, diferente de Juan Carlos, eu viajei para chegar. Tal e qual Eduardo Galeano entendi que “a cada dia, nasce uma história”. E que são elas que embelezam e dão sentido especial ao nosso cotidiano.

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



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