iBOM | A verdadeira origem da Luz Assombrada conhecida em BD



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Bom Despacho (MG), 21 de fevereiro de 2018

A verdadeira origem da Luz Assombrada conhecida em BD

Imagem ilustrativa
Publicado em 16/01/2018 13:44:00

TADEU ARAÚJO - Semanas atrás, publiquei nesta coluna um interessante e muito bem redigido texto de autoria de meu irmão Pedro Araújo Teixeira com esse tema, que falava do negro Cuca, que vivia e trabalhava na fazenda do Juca Araújo, e de suas bravatas mal sucedidas no enfrentamento com a Luz Assombrada. Hoje passo aos meus leitores a história da origem dessa luz contada por um boiadeiro que pedira pousada na fazenda de meu bisavô Zé Rufino, no Picão, muito tempo atrás, por volta da década de 1930.

De todas as assombrações de que me falaram na infância e na adolescência, eu cheguei a ver, com estes meus olhos que a terra há de comer, apenas uma dessas entidades fantásticas, uma aparição fantasmagórica, que todo mundo temia encontrar: a luzinha misteriosa, que assombrava o povo do sertão de Bom Despacho.

Certa vez, na fazenda, meu pai acordou toda a família, de madrugada, para a vermos brilhar, sobre o pântano, na galhada de uma árvore, a cem metros da casa. Era maior que uma lua cheia. Uma bola de fogo d’ourada e tristonha, tisnada levemente por tons azuis e roxos. Ela inspirava uma grande melancolia. Não tivemos medo daquela vez, porque meu pai usava uma arma poderosa contra entidades perniciosas de outro mundo. Com a prece do “Salmo Noventa”, que ele entoou, meu pai garantiu que nada deste mundo ou do outro nos faria mal. Rezando essa oração, era certo que estávamos protegidos do maligno e de suas investidas contra os filhos de Deus.

A eternidade e universalidade da luz

A existência desse fenômeno parece ser eterna e universal. Narrativas da Idade Média dão-nos conta de casos do seu aparecimento em castelos, estradas, cemitérios, beira de rios e pântanos e até nos subúrbios escuros das cidades. O Padre José de Anchieta, em seus relatos, por volta de 1590, faz menção dele junto dos brejos, lagoas e cursos d’água, onde ele aparecia. Padre Anchieta descreveu: “Era o boitatá, uma gigantesca serpente de fogo que atacava e matava os indígenas. Uma protetora das matas que perseguia quem queimasse ou destruísse os arvoredos”.

Os boiadeiros

Nas fazendas do Picão, de propriedade de meu bisavô Zé Rufino ou no Raposo de meu avô Alfredo, em Bom Despacho, costumavam aparecer boiadeiros com seu gado, seus cavalos e peões, cortando estradas pelo Brasil afora. Ninguém negava hospitalidade a esse povo heroico, quando pediam pernoite até prosseguirem na manhã seguinte. Os bois e os cavalos eram soltos nos pastos. Os homens acomodados no paiol, sob cobertas que minha avó lhes oferecia. Alimentavam-se com as farturas que as fazendas tinham em profusão. O chefe da comitiva e algum lugar-tenente eram recebidos dentro da casa. Tinham o privilégio de sentarem-se na roda de banquinhos em volta da fogueira que se acendia dentro da imensa cozinha do casarão, para “quentar fogo”, nas noites friorentas dos invernos de antanho.

E os líderes dos boiadeiros faziam o deleite de todos, dando notícias do mundo lá fora, das terras longínquas de onde vinham tangendo boiada: de Minas, da Bahia e até de Goiás.

A origem da Luz Misteriosa

Foi numa dessas rodas de prosa, no Raposo, que conheci, uma noite, uma figura inesquecível para mim, então criança de 8 anos de idade. Era um velho boiadeiro, alto magro, penetrantes olhos verdes, barbas longas e negras, voz pausada e mansa de sotaque tipicamente mineiro. Chamava-se Belarmino. Ele, segundo vim a aprender recentemente com Carlos Lopes, o nosso editor pernambucano, era um gandavo, um contador de histórias.

Procedia lá das bandas do Urucuia. No bate-papo do momento, fizeram-se várias referências à luz misteriosa, conhecida por tanta gente. Causos quase todos repetidos e adrede escutados de visão da luz, de contato com ela, de explicações sobre sua origem.

Belarmino fez também seu relato sobre o assunto. “Me perdoem, vosmicês, mas o causo que vou referir é verdadeiro. Sucedeu com Deodato, um tio, irmão mais velho do meu pai, há um tempão. Foi lá no Coxixó, povoadozinho, 12 km pra baixo de Carinhanha em Minas Gerais. Ele tinha lá seu pedacinho de terra, no meio das veredas, junto ao rio. Noite alta e escura que nem breu, voltava da cidade pro seu rancho. Ao virar a curva do caminho, sob um velho pau-d’óleo, que carregava fama de mal assombrado, tio Deodato topou com a coisa. A luz, o boitatá, o fogo fátuo, que nem se deu ao trabalho de subir pro galho do pau. Estava ali no meio da estrada, atrapalhando a passagem do cavalo. E ali ficou sem tugir nem mugir.

O cavalo refugou, e, mesmo esporeado, empacou e andou pra trás.

Tio Deodato possuía coragem afamada. Não conhecia medo ou arreceio de qualquer coisa ou pessoa viva ou morta. Apeou-se do alazão. Retrocedeu uns metros e amarrou-o pelo cabresto num mourão de cerca. Aí, caminhou direto pro facho de luz, quieta e brilhante no mesmo lugar. Meu tio tirou o chapéu da cabeça. Rezou o credo e outras orações poderosas que sabia. Então intimou, em nome das cinco chagas de Jesus Crucificado, com alta voz e autoridade, destemidamente: “Ocê, seja ocê quem for, me apareça em forma de gente ou do que lá quiser e me diga o que tá querendo com os viventes como nós”

Um estouro se ouviu. Deodato não tremeu, nem fugiu. Esperou. No meio do fogaréu, ele conta, apareceu um caixão negro. Sentada na cabeceira do esquife, vestida com longa e diáfana veste branca, uma jovem loira, com longos cabelos de tranças. Ao seu lado, nas bordas do caixão, havia três urubuzinhos. A mulher, aí, respondeu: “Com gente viva como vocês, eu não quero nada, eu só quero que me deixem em paz. Deixem eu cumprir a sina que o Todo-poderoso me traçou. Não me aborreçam. Não me temam. Não perturbem. Quando viva, tive três filhos sem me casar. Escondi de meus pais, da família e dos mal falantes os meus estados de gravidez, até as crianças nascerem. Dava a luz, sozinha, no mato ou em taperas das propriedades de meus pais. Em seguida matava-os um por um. Sepultava-os debaixo de uma gameleira sombria, pois se aparecesse em casa com eles, seria arrenegada e expulsa do lar, como opróbrio da família, pra nunca mais votar.

Vivi, depois disso, muitos anos além. E cumprindo a sina inexorável de todo vivente, eu também morri e compareci ante o tribunal do Altíssimo. Ele então me falou: “Os crimes e os pecados que você cometeu, assassinando pequeninos inocentes, não têm perdão. A bem da verdade nem pro inferno você merece ir, tão grande a sua culpa. Diante disso, eu a condeno, minha filha renegada, a voltar à terra. Lá viverá acompanhada de seus anjinhos até o fim dos tempos. Viverá na forma de um fogo peregrino a amedrontar todos os que a virem. Dia e noite, noite e dia, pelos séculos afora. Você está condenada a vagar, até o fim dos tempos, no sofrimento e na dor como castigo por seus crimes e pecados abomináveis. Só então, no fim do mundo, eu usarei de minha infinita misericórdia e lhe concederei a salvação, isso porque você e seus anjinhos foram também vítimas da ignorância e do preconceito das pessoas que a cercavam”.

O velho relógio da varanda soou suas oito badaladas. Oito horas da noite. Na fazenda, horário limite para irmos todos dormir. Cada um se retirou em silêncio, assombrados e tocados com o caso do boiadeiro Belarmino.

E até hoje, se me é dado, como já aconteceu mais duas vezes em minha vida, topar com a Luz Misteriosa, em meus caminhos, eu a observo, não com receios, mas com respeito. Então paro e rezo-lhe uma ave-maria com piedade, desejando-lhe que cumpra resignada a sua pena para assim poder um dia descansar, com os seus filhinhos, em paz, no reino de Deus.

Nota aos meus leitores: Na próxima edição, meu personagem da semana será o nosso caríssimo Tãozico, craque da seleção do século, cidadão gentil, elegante e solidário com aqueles que sofrem e precisam de apoio, principalmente nas enfermidades. Uma bela história de vida. Não deixem de ler.

Tadeu Araújo é professor, escritor e fundador da ABDL



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