iBOM | Praça Ir. Albuquerque: alma santa e caridosa de Bom Despacho



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Bom Despacho (MG), 22 de setembro de 2017

Praça Ir. Albuquerque: alma santa e caridosa de Bom Despacho

Publicado em 09/03/2015 19:06:44

DENISE COIMBRA - Sentada num dos bancos da praça vejo a vida em seus diversos ângulos, ritmos e movimentos. Conhecida como pracinha da Santa Casa, ela recebe diariamente, e à noite também, o beijo, o carinho e o abraço aconchegante dos namorados, amigos e conhecidos que ali se encontram, numa homenagem ao amor e hino à amizade.

Pracinha porque pequena se comparada com outras praças da cidade, mas gigante pelas necessidades, demandas e desejos que giram em torno dela: a Prefeitura, o Pronto Atendimento, a Igreja, o Nefrobom, a Clínica Corporal e o Lions Clube. Além de lanchonetes, bares, farmácia, casas e prédios.

Transeuntes apressados esbarram em meus pensamentos que começam a descrevê-la em seus contornos. Metáfora do corpo da cidade. O cérebro pode ser representado pela Prefeitura Municipal cuja nobre função é planejar e implementar políticas públicas visando o bem estar da população.

Indago a dois homens sentados ao meu lado: o que acham do governo?  Um deles responde rápido e convicto: “torço para que não dê certo, o municipal e o federal.”

É incrível como a política no Brasil e, aqui também, envolve paixão tão ou mais que o futebol. Diferente dele, na política quando um governo não “dá certo” perdemos todos! Os efeitos são muito mais nefastos e perduram mais do que uma partida de futebol, retruco com delicadeza e sinceridade. Ele dá de ombros, levanta-se e sai em direção ao carro estacionado em frente ao PA.

O Pronto Atendimento que traz em seu nome o que na prática muitas vezes não consegue realizar é ao mesmo tempo, para muitos, a única e a última salvação. O protocolo de Manchester tinha salvado a vida da filha de uma senhora que acabara de chegar do bairro JK. Ela fora atendida imediatamente porque a classificação do risco determinou que ela precisava de cuidado urgente. “Nunca um cartão vermelho foi tão desejado”! Brincou o irmão, torcedor “doente” do Cristalino Esporte Clube sediado no bairro São Vicente.

Novamente o futebol mesclado à paixão. Entusiasmo muito vivo, amor ardente, a paixão também deveria reger a escolha daqueles que irão trabalhar em atividades de administração, acolhimento e cuidado de pessoas, como Maria, a paciente que recebeu o cartão vermelho e, ao contrário do futebol, poderá realizar muitas partidas, no jogo difícil e imprevisível da vida. Além de seguir o protocolo, é preciso carregar no coração e no colo a Saúde Pública daqui e de qualquer cidade no Brasil.

Em frente à Santa Casa, um rumoroso burburinho me confunde. Gritos de alegria pelo nascimento de uma menina: Jeniffer, Jeniffer! Repete a tia, ao celular. Sentada ao meu lado uma jovem aflige-se pela morte do pai: Sr. João. Pai amoroso e cuidadoso, lastima ela num choro convulsivo! Ensimesmada e solidária me afasto lentamente.

Vida e morte nos acompanham. Alegria e assombro. Emoção dúbia! A tristeza pelo meu pai e irmão mortos e a certeza de que estão vivas minha mãe, irmãos e minha filha se misturam.  O desejo de tê-los todos ao meu lado me invade! Abro os olhos e me descubro na soleira da Igreja.

Dentro de mim a religiosidade e a fé dos bom-despachenses me confortam. Sigo em paz. Diante do Nefrobom me deparo com a espera ansiosa de uma senhora, cujo filho acabara de chegar para a sessão de hemodiálise. A esperança de uma vida renovada e purificada diariamente me tocam profundamente! Ainda perturbada, caminho de volta para a praça.

Nela, várias enfermeiras sentadas. Algumas conversam e riem. Outras em silêncio.  A presença delas anuncia para mim a ausência deles: os médicos. Senti falta de vê-los sentados na praça. Contemplar a natureza ajuda-nos a prestar atenção, olhar nos olhos das pessoas que vem e vão pelos consultórios em busca, muitas vezes, de conforto e alento, muito mais do que remédios, embora muitas vezes, elas não o saibam. Minha avó dizia: para uma vida saudável não há prescrição, a não ser a de que para termos saúde é necessário cuidarmos uns dos outros!

Ao observar uma jovem que estudava enquanto esperava o ônibus, chamou-me a atenção o fato de que há carros demais no entorno da Praça. Observei também motoristas imprudentes em seus carros velozes. Num átimo pensei: além de área hospitalar, a praça é também área escolar. Muitas crianças e jovens vão e vem a pé e de bicicleta, principalmente do Miguel Gontijo e do Colégio Tiradentes.

 A despeito de toda conturbação, os pássaros cantam, as folhas das árvores caem, o vento as espalha e empurra-as para a rua. Essa cena inesperada me desperta para a rotina da casa e do trabalho. Pouco a pouco me distancio.

Ao atravessar a rua um último pensamento me escapa, salta e corre em direção ao Lions Clube. Quer dançar forró, jogar bingo e participar de uma festa beneficente. Peço-lhe que aguarde a próxima quinta-feira para irmos juntos. Rio desse desatino. Olho para trás e me despeço da Praça Irmã Albuquerque: a alma santa e caridosa de Bom Despacho! 



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