iBOM | Sofrimento e falta de respeito com a mulher na hora do parto



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Bom Despacho (MG), 13 de dezembro de 2017

Sofrimento e falta de respeito com a mulher na hora do parto

Imagem ilustrativa
Publicado em 17/11/2017 09:12:40

DÉBORA RODRIGUES - Outro dia tive o prazer de acompanhar o nascimento do filho de uma amiga minha. Fui para a maternidade com ela com um friozinho na barriga, pois eu nunca tinha acompanhado o nascimento de um bebê.

Minha amiga não estava em trabalho de parto. Ela foi para a maternidade porque no seu caso era bem provável ser necessária uma cesárea, o que ela não queria. Para que o desejo dela de ter um parto normal fosse atendido, minha amiga e a médica do pré-natal combinaram que elas esperariam que esse trabalho de parto acontecesse. Caso não, ela se internaria em um dia que fosse plantão dessa médica para uma tentativa de indução. Escolha dela, a médica respeitou.

Chegamos lá bem cedo, por volta de 7 horas. Nos acomodamos no quarto e logo a médica do pré-natal veio. Fez os procedimentos necessários para que o trabalho de parto começasse e em momento algum ela ou sua equipe abandonaram minha amiga. Ela foi assistida o dia todo por pessoas carinhosas, competentes, muito pacientes e respeitosas.

Eu fiquei admirada e muito feliz. Ela não parecia que teria um bebê dali a algumas horas. Estava alegre e falante, como sempre. Em algum momento do dia eu cheguei à conclusão que minha dúvida sobre ter bebê aqui na cidade era bobagem.

O dia foi passando e o pequeno decidiu que não viria durante o dia. A equipe que estava de serviço despediu-se e a que começava o plantão às 19 horas assumiu. Nosso anjinho nasceu às 20h15 e nesse tempo em que minha amiga ficou com a nova equipe, sofreu tudo que não havia sofrido durante as 12 horas que antecederam.

A nova equipe era composta por pessoas completamente despreparadas. Trataram minha amiga com rispidez, grosseria e falta de respeito. Ameaçaram, chantagearam e não deram assistência. Ela dizia que o bebê estava nascendo e as enfermeiras riam, dizendo que ainda ia demorar.

Eu vi que de fato ele estava nascendo e fui até a sala onde as três estavam conversando. Avisei que o bebê estava mesmo vindo e que se ele nascesse em local inapropriado e algo acontecesse com eles, elas responderiam.

Após essa minha intervenção elas vieram e se assustaram quando viram que o bebê já estava saindo. Com muita dificuldade por causa da dor e sem que uma cadeira de rodas fosse oferecida, minha amiga foi para a sala de parto. Elas haviam dito ao médico que poderia ficar tranquilo no Pronto Atendimento, pois o bebê não chegaria antes das 22h00.

Minha amiga gemeu um pouco mais alto de dor, não gritou, mas mesmo assim elas pediram para que ela se calasse, não fizesse barulho e comentaram que parto bom é quando a gestante não grita. Uma delas fez o famoso “pique” e disse para a outra que a tesoura não estava cortando. O médico chegou chamando a atenção delas sobre não terem percebido que o bebê estava nascendo e o chamado antes. Pediu que o pique fosse aumentado e ela usou novamente a tesoura que não cortava.

Aí o bebê veio. Deu apenas um chorinho para nos mostrar que tudo estava bem com ele. Minha amiga o viu por um instante e logo já o levaram para pesar, higienizar, essas coisas. Eu chorei. De emoção, de raiva, de alívio, por estar de mãos atadas.

Quando vi o que estava acontecendo, pensei em chamar a Polícia e denunciar o fato, mas tive medo porque minha amiga dependia daquelas pessoas até às 7h da manhã do outro dia. Se a trataram assim sem motivo, como a tratariam depois da denúncia? Se elas fossem detidas, quem “cuidaria” de todas as outras pessoas que estavam na maternidade?

Isso se chama violência obstétríca e acontece todos os dias em nossa cidade. Já ouvi inúmeros relatos e dessa vez assisti de perto. Durante o restante da noite, as mesmas enfermeiras cuidaram do bebê muito bem. Percebi que aquele tratamento inapropriado (para não usar palavras de baixo calão aqui) foi oferecido apenas à mãe em trabalho de parto.

Cadê a empatia entre as mulheres? Deixarei que cada um de vocês reflita e chegue às suas próprias conclusões. Queremos respeito na hora de parir!

Débora Rodrigues é psicóloga e conselheira tutelar em BD



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