iBOM | Meu avô, Geraldinho do Engenho, e as flores no meu cabelo



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Bom Despacho (MG), 23 de janeiro de 2018

Meu avô, Geraldinho do Engenho, e as flores no meu cabelo

Geraldinho Rodrigues (Foto: Grupo Teatro Kabana)
Publicado em 02/11/2017 19:34:51

DÉBORA RODRIGUES - Esses dias pediram para que eu fizesse uma biografia do meu avô, o grande escritor Geraldo Rodrigues, conhecido carinhosamente como Geraldinho do Engenho. A biografia era para ser lida durante o lançamento do último livro dele.

Comecei escrevendo a vida dele desde quando nasceu. Afinal, é assim que começam as biografias que vemos por aí. Escrevendo percebi que essas coisas todo mundo já sabe, afinal, são 11 obras solo publicadas e ainda participação em 7 obras coletivas. Além disso, meu avô já foi protagonista de diversas homenagens contando sua trajetória, inclusive aqui no Jornal de Negócios.

Cheguei então à conclusão de que contaria aquilo que a maioria não sabe e que eu conheço muito bem. Falei não sobre o Geraldinho do Engenho, escritor, comerciante, figura respeitada na comunidade, mas sobre o vovô Geraldinho, esse que apresento a vocês agora.

Quando nasci, ele que já escrevia mas não publicava, fez para mim um acróstico usando meu nome, mostrando-me já ali o quanto era gentil.

A casa dele e da minha avó sempre foi casa de todo mundo. Ele jamais deixará você sair de lá sem tomar ao menos um cafezinho.

Já ouvi inúmeras vezes que meu avô tem a feição muito séria. Saibam que é só a cara. Por baixo dessa testa franzida tem um coração do tamanho do mundo. Leia os livros dele e veja o quão engraçado ele é.

Outro dia minha afilhada que também é neta dele perguntou por que meu cabelo é cheio de “torcidinho”. Antes que eu respondesse qualquer coisa, ele disse a ela que cada “torcidinho” desse é uma flor e que eu carrego na cabeça um buquê. Nunca ninguém disse nada tão lindo e gentil sobre meus cachos. Ele consegue fazer poesia até com um cabelo.

Meu avô batalhou a vida toda para dar conforto à todos nós, mas, jamais conheci alguém tão desprendido de bens materiais quanto ele. Se ele te pede para comprar algo, jamais pegará o troco de volta.

Ele nunca nos critica. Deixa que façamos nossas escolhas e que vivamos nossas experiências. Mas não ouse ficar muito tempo sem ir até a casa dele, esse sim é um motivo para que ele chame sua atenção, e com razão.

Ele sempre teve comércio e quando eu era pequena e morava com ele, era como morar na Disney das guloseimas. Pedia doce para minhas duas mães antes do almoço e elas diziam não. Então, ia até ele que, com seu enorme coração, por muitas vezes desconhece a palavra “não”. Acho que ele foi o cúmplice de doce antes do almoço de todos os netos. Que minha mãe e minhas tias não leiam isso.

No Engenho funciona assim: uma pessoa sempre é da outra, ela não carrega seu nome sozinha. Por exemplo: eu sou a Débora, da Silvane, do Jacutinga. Ele não, ele é o Geraldinho do Engenho, porque é assim que ele se sente: parte dessa comunidade e desse lugar que tanto ama.

A maior herança que ele e minha avó passaram para todos nós foi a importância da família unida e de um caráter reto, independentemente de onde estivermos.

Ele é um apaixonado pela vida e por suas coisas mais simples. Se emociona até com o desabrochar de uma rosa.

Meu avô demorou muito para publicar seus livros e até hoje pensa que não é um escritor, diz que não tem estudo e que seu vocabulário é limitado. Já até me disse que “quem deras escrevesse como eu”. Quem deras eu escrevesse como ele, mal sabe que é o Guimarães Rosa do Vale do Picão.

Débora Rodrigues é psicóloga e conselheira tutelar em BD



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