iBOM | Crônica da feliz idade: sou uma sobrevivente do tempo que já foi



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Bom Despacho (MG), 23 de janeiro de 2018

Crônica da feliz idade: sou uma sobrevivente do tempo que já foi

Imagem meramente ilustrativa
Publicado em 02/11/2017 13:38:02

DENISE COIMBRA - A escritora, jornalista e poeta Martha Medeiros inspirou-me a escrever esta crônica. Quando leio seus textos é como se ela escrevesse batendo um papo comigo no sofá da casa dela ou tomando um café na minha. Seu texto é leve, embora escreva sobre o peso de ser mulher ainda em tempos atuais. Decidi arriscar um novo formato de texto. E conteúdo também. Por favor, não desista de ler e entenderá o motivo.

A outra parte desta crônica devo ao humorista, autor de teatro e escritor Luiz Fernando Veríssimo. Ele carrega a mão na ironia e, contraditoriamente, seu texto também é leve. Faz parecer um soco no estômago, as cócegas nos pés. Acho que você me entende. Vamos ao esclarecimento. Esta introdução foi para criar coragem e escrever sobre o meu aniversário. Você pode pensar: o Brasil sendo roubado pelo governo, deputados e senadores. Bom Despacho cada dia com menos água e “essa aí se achando” a ponto de escrever sobre o aniversário dela.

Mas é por isso mesmo leitor. Faço aniversário neste sábado, 28 de outubro. E é por isto também que eu preciso celebrar e compartilhar. Você pode imaginar que sou uma sobrevivente? Sobrevivi ao sarampo, à coqueluche, embora tenha me deixado estrábica. Ao quizadinho de areia, folhas e pedras, a manga verde com sal e leite. Ao pular da ponte do Simeão e descer o rio na bóia de caminhão. Sobrevivi ao escorregador da Lajinha. Ao cigarrinho de chuchu ou “cigarro de verdade” tomado emprestado de algum adulto distraído, à pregada de marimbondo e abelha, a mordida de cachorro doido em agosto. Consegui fugir dos tiros de espingarda de chumbinho dados pelo Perigoso, logo após roubar frutas ou nadar escondido na casa do comandante. Soltar pipa em cima do telhado, descer deitada no carrinho de rolimã sem freio, desde o jardim da Vila Militar até a rua de baixo. Sobrevivi à puxada de cabelo, unhada e gozações: zarolha e pirata por causa do olho estrábico que vivia tapado. Sobrevivi ao sermão na escola e a surra em casa por fazer bagunça na escola. Sobrevivi ao medo da Sá Dona, da Leda Doida, do Ministro e do Tõe do Rádio. Sobrevivi à primeira decepção amorosa, à morte dos amigos e amigas tão jovens. Ao suicídio, ao acidente de carro, ao porre de cerveja misturada com cachaça. Ao loló, ao lança-perfume e a outras experiências inconfessáveis, mesmo que o “crime já tenha prescrito.”

Sobrevivi às passeatas das Diretas Já, as festas nos DAS da PUC, da UFMG e da FUMEC, ao curso de Psicologia, às intermináveis horas-extras, seminários e congressos. Sobrevivi ao trabalho em inúmeras empresas e a pós-graduação. Ao parto, ao término do casamento. Padeço no paraíso eterno da maternidade. Eufemismo proposital para dar o tom dramático não só ao texto mas ao papel cotidiano de mãe.

Minha amiga Beth diz que é porque sou escorpião com ascendente em touro. E porque sou protegida por São Judas Tadeu e Exu. Para falar a verdade e com o passar do tempo, é bom ser lembrado, nem que seja pelos santos e entidades...

Sobrevivi à saia justa, ao salto alto, a maquiagem. Hoje só água e sabonete neutro. Tênis e sandália baixa. Desligada da moda e ligada no f...

Sobrevivi ao Hollywood Rock, ao Robert Plant e ao Jimmy Page a 2 metros de distância e à minha frente! Você entendeu agora, que eu sou um artigo raro, um dinossauro, provavelmente para muitos que me lerem! É por isto que insisti em escrever este texto. Tal e qual o Veríssimo, fazer aniversário todo ano, dá nisso: acabei envelhecendo. Portanto, as minhas opções do que quero ser quando crescer só estão diminuindo. E, tal e qual minha mãe me lembrou, se eu tive pressa para nascer, não tenho nenhuma expectativa de morrer nos próximos tempos. A não ser que a morte aproveite a pressa que anda movendo o mundo e me atropele antes. Vou chorar muito, mas vou esperneando. Afinal esta foi a marca da minha estréia neste louco e, ainda adorável mundo. Entretanto, reafirmo: prefiro viver sem temer.

Sobrevivi à gula, ao sobrepeso, a todas as frivolidades e futilidades da vida. Ao preconceito, ao bullying, a lava-jato, a escola sem partido, à justiça desmoronada. Arrisquei um novo texto. Um novo estilo, mesmo correndo o risco, tal e qual Martha Medeiros, “posso ser expulsa do paraíso, ser considerada persona non grata, uma mulher sem juízo, que não merece ir pro céu, uma vilã de novela.” Sim, eu prefiro. Melhor do que ser boazinha,” é poder ser cronista, ainda que não tenha tanto talento quanto o dela! 

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



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