iBOM | O que fazer para diminuir a violência dos nossos jovens?



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Bom Despacho (MG), 23 de janeiro de 2018

O que fazer para diminuir a violência dos nossos jovens?

Imagem ilustrativa
Publicado em 26/10/2017 14:15:07

DENISE COIMBRA - Enquanto aguardava na fila do supermercado, não pude deixar de ouvir uma conversa entre duas mulheres.

“- Só hoje foram três notícias de violência. Cada uma pior do que a outra. A primeira foi a de uma servidora pública estadual que levou uma coronhada na cabeça no local de trabalho dela. E o policial que a agrediu também estava trabalhando. Assustada perguntei: - Em Bom Despacho?

- Não! - De jeito nenhum! Respondeu-me rapidamente uma delas. - Foi no Rio de Janeiro. Como explicar tamanha violência? Um trabalhador que bate em outro enquanto trabalham?

A segunda notícia também é de hoje e dizia que uma mulher foi morta a pedradas em Lagoa da Prata. Aqui do lado. O suspeito? O namorado. Não sei mais em que mundo vivemos! Lastimou uma delas.

- E os dois jovens que foram presos hoje com réplicas de armas na Avenida das Palmeiras? – Que horror!” – Emendou a amiga.” Novamente interrompi a conversa e perguntei:

- Por quê a senhora está horrorizada se as armas eram falsas?

Incrédula, a mulher disparou as seguintes palavras: - Você acha normal ou fica confortável sabendo que dois jovens saíram por aí com réplicas de armas? - Eles deveriam estar com as mãos ocupadas com instrumentos musicais, livros, desenhos ou pinturas!

Num tiro certeiro, as palavras dela se alojaram em meu coração. E a consciência doeu.

Ao meu lado, um senhor, alheio ao meu sentimento mas atento ao diálogo, acrescentou:

- Deveriam estar na escola! Estudar e praticar esportes era isso que deveriam estar fazendo! – Ou então deveriam estar trabalhando! Talvez dessem valor aos pais que se esforçam tanto para dar uma vida digna aos filhos! – Completou o homem visivelmente alterado.

Antes que eu me recuperasse do impacto causado pela resposta da mulher, elas foram embora. A caminho de casa não pude deixar de pensar que a violência tem aumentado em nossa cidade, para não falar no Brasil e no mundo. Numa busca rápida na Internet identifiquei várias notícias sobre roubos, assaltos e assassinatos ocorridos nos ultimos meses e envolvendo jovens que vivem em Bom Despacho. Impressionou-me a faixa etária: menores de idade e jovens entre 18 e 23 anos. Porque eles estão envolvidos em situações tão violentas? Onde estão seus pais? E as escolas? O que tem sido feito para debater essa situação com os jovens, as familias e a comunidade? Onde está o Estado com políticas públicas que promovam a socialização, além da participação em atividades culturais e de lazer e que evitem a evasão escolar? A maioria desses jovens não está matriculado em nenhuma escola, pois já freqüentam a “escola do crime”. Alguns desde muito cedo, disse uma das mulheres antes de sair do supermercado. E por quê?

Sabemos que não há uma resposta única e que é complexo entender as motivaçoes das pessoas, principalmente quando nao dialogamos com elas. Preocupa-me cada vez mais buscar entender melhor a situação dos jovens envolvidos em conflitos sociais. Reduzir a maioridade penal? Construir mais centros sócio-educativos? Inclusive em nossa cidade?

Há alguns meses eu estive no CESEC e ouvi a Defensora Pública falar sobre o envolvimento de jovens, cada vez mais cedo, em delitos ou situações de violência. Acreditamos que essa realidade pode ser mudada? Estamos dispostos a muda-la? Sabemos o que eles querem ou esperam construir para o seu futuro? Quem se dispõe a conversar com eles, principalmente com aqueles que ja desistiram da escola ou estão envolvidos no uso abusivo ou no tráfico de drogas? Muitas vezes as nossas certezas, medos e preconceitos os afastam da possibilidade de rever suas escolhas e atitudes.

Outro dia, alguém comentou sobre varios episodios de violência na Praça Inconfidência e como isso fez as pessoas afastarem-se do local. Ela se perguntava porque a Internet de graça nao foi instalada lá? Porque os artesãos nao promovem cursos à noite ou abrem uma vez por semana a noite para vender seus produtos? Outros artesãos poderiam expor lá também. A escola situada em frente poderia promover atividades artisticas na praça. Quando ocupamos os espaços públicos, a gente os humaniza, melhora a convivência e a violência tende a diminuir, completou. Aulas de ginástica e dança na praça durante a Primavera seria uma experiência interessante. Por quê não?

Ao sentar-me para escrever este artigo, um turbilhão de ideias e sentimentos tomaram conta de mim. O policial que recorre à violencia no cumprimento do seu trabalho. O namorado suspeito de ter matado a namorada a pedradas. E os dois jovens presos com réplicas de armas na Avenida das Palmeiras. Minha hipótese é que as armas de plástico nas mãos dos jovens demonstram também o quão inócuas têm sido as nossas atitudes e a de todas as instituições envolvidas perante situações tão graves.

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



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