iBOM | Passado de heroísmo nas escolas rurais de Bom Despacho



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Bom Despacho (MG), 23 de janeiro de 2018

Passado de heroísmo nas escolas rurais de Bom Despacho

Professora Alice Rodrigues (esq) e sua filha Fátima Rodrigues, também professora
Publicado em 15/10/2017 12:38:29

TADEU ARAÚJO - As escolas municipais funcionavam até pouco tempo só nas roças. Mesmo porque grande número de famílias viviam na zona rural. Contratadas pela prefeitura, as professoras enfrentavam condições e situações as mais diversas possíveis para trabalhar. Vejamos algumas histórias dessas heroínas da educação.

Professora Alice Lopes Rodrigues

Alice Lopes Rodrigues é filha de Antônio Lopes Rodrigues, Antônio do Olímpio, e dona Chiquinha. No Coronel Praxedes, onde tirou o diploma do primário com louvor e distinção, foram suas professoras a Dona Zulma e a Dona Rolimã.

Alice vivia na propriedade da família: a Fazenda Cachoeira dos Coutos. Preocupado com o analfabetismo na região, Antônio do Olímpio tinha o firme propósito de mudar aquela situação. Por volta de 1943/44, ele foi à prefeitura e conseguiu que o Favuca – prefeito/interventor do município – instalasse na Cachoeira uma escola rural. No espaço de seu engenho de cana de açúcar colocou imensa mesa rústica e compridos bancos de madeira. Pronto, a sala para as aulas estava instalada. Não havia giz nem quadro-negro, nem material escolar. Mas havia uma professora cheia de amor pelos alunos e uma capacidade inata para educar. Era Alice, a filha do Antônio do Olímpio e de dona Chiquinha. Montada a cavalo, saiu a matricular alunos de porta em porta nas fazendas. Nos humildes ranchos dos empregados e nos povoados do Mato Seco e do Córrego Areado. Chegava a ter por ano cerca de 40 meninos em sua classe. Como não tinha giz nem quadro, escrevia pessoalmente as lições para os alunos em seus cadernos escolares. E assim conseguia ensinar, por que tinha na alma e no coração um lema: “meus alunos vão aprender... todos têm que aprender”. E incansavelmente ia alfabetizando seus discípulos. Parecia uma missão impossível, pois Alice, em sua classe, recebia, ao mesmo tempo, alunos do 1º, do 2º e do 3º ano primário. E, milagre da dedicação, da fé, da coragem de trabalhar sem esmorecer, conseguia atender a todos eles no mesmo espaço e ao mesmo tempo. .E seguia seu objetivo de manter a escola aberta, dando para as crianças aprenderem a ler, a escrever, a assinar o nome. A fazerem as 4 operações e dizerem de cor a tabuada. Depois seguirem pela vida na busca de um futuro melhor. Conquistar relevada posição na sociedade e carreiras promissoras na vida.

Ainda hoje, muitos desses alunos, homens e mulheres feitos, visitam dona Alice. Vêm ver dona Alice, mostrar gratidão e lembrar os velhos tampos.

O dia amanhecia e a criançada ia chegando. Andavam quilômetros, às vezes, debaixo de um frio intenso. Outras sob fortes chuvas ou sol escaldante. Uns com fome recebiam alimentação da fazenda. E se lambuzavam de melado do engenho do sô Antônio que liberava também leite pra muitos deles e frutas do seu quintal. Antônio Olímpio ficava feliz de ver seu povo na escola, conduzido pelas mãos de sua filha professora.

Nos finais da década de 1940, casou-se com José Rodrigues Filho e foi morar nos Alves. A contragosto, teve de parar a atividade que tanto amava: lecionar. Os sacrifícios, as lembranças e as alegrias daquele tempo da escolinha da Cachoeira, Alice os carrega e carregará sempre pela vida afora dentro de sua alma e de seu coração.  

Tal mãe, tal filha: Fátima Rodrigues

Maria de Fátima Rodrigues é filha de dona Alice Lopes Rodrigues e de José Rodrigues Filho. Fátima, hoje, destaca-se na administração municipal como Secretária de Planejamento e Gestão da Prefeitura de Bom Despacho.

Aos 17 anos, depois de concluir o Curso de Formação de Professores Primários, no Miguel Gontijo, e simultaneamente no Curso Científico do Colégio Tiradentes, assumiu o cargo de professora na Escola Rural da Passagem. E a exemplo da mãe empenhou-se a fundo no seu mister.

Isso foi no ano de 1974, no segundo mandato do prefeito Geraldo Simão Vaz. Na segunda-feira, mal rompia o sol, uma velha Rural pegava a ela e a outras colegas em suas casas na cidade e as levava até a Passagem. A velha Rural as buscava também para passarem os fins de semana na cidade. Era um verdadeiro trajeto tipo Indiana Jones. Muitas vezes o veículo quebrava no caminho ou ficava atolado no barro. Ou simplesmente esqueciam-se delas nos fins de semana. Então pediam carona e vinham nas carrocerias de caminhões leiteiros por vias esburacadas, cheias de lama ou poeirentas. Meninas brasileiras que não conheciam os chiliques e o conforto das meninas de hoje.

Para morar na Passagem, Fátima alugou um quarto numa casa simples do povoado. A proprietária lhe fornecia a alimentação, paga com seus parcos salários. Ela dormia em colchão de palha, num cômodo infestado de pernilongos. A luz... de lamparina. O banho... de bacia ou de copo.

Na escola, a exemplo da mãe, tudo fazia para alfabetizar seus alunos da primeira série. Nos sábados e domingos, dias de seu descanso, ela se punha a preparar material escolar, com recursos de seu próprio bolso. Os cartazes dos Três Porquinhos para alfabetizar os pequeninos, ela os colava pacientemente do material que pedia emprestado no Coronel Praxedes. Era comum os meninos e meninas chegarem ensopados de chuva ou por atravessar os córregos cheios do caminho. A educação física era feita nos pastos em volta da escola. Não havia merenda escolar confiável. A carne de charque costumava estar perdida. Aí ela e as colegas pediam nos açougues da cidade ossos com tutano e algum rebotalhos de carne para prepararem a sopa da merenda. A higiene era precária. Fátima teve a iniciativa de pedir e ganhou, da multinacional Gessy Lever, sabonetes, escovas de dente e dentifrícios para doar aos meninos que mal conheciam esses objetos.

Idealista, criou a biblioteca escolar com livros doados e preparava com esmero as crianças para as festas escolares. À noite, para não ficar inativa, passou a lecionar no MOBRAL, curso de alfabetização de adultos. Ajudava nos cultos e nas comemorações da igreja, onde também aprendeu crochê, ensinado por mulheres peritas nessa arte popular.

Quando se formou no magistério, seu pai chegou a lhe propor que fosse lecionar aos filhos de colonos em sua fazenda. Mas a jovem professora sonhava sonhos maiores. Queria fazer vestibular e um curso na Federal. Por isso lá na Passagem, até altas horas, à luz de lamparina, que deixava seu nariz enfumaçado, se punha a ler os livros de literatura do vestibular da UFMG, cerca de 8 a 10 romances extensos.

Lecionou até o fim do ano na Passagem. Depois seguiu para Belo Horizonte, com cara e coragem, sem dinheiro no bolso, como uma jovem latino-americana dos anos 70. Arrumou emprego num banco. Sem freqüentar cursinho, conseguiu como o faziam os alunos do Miguel Gontijo e do Tiradentes, passar no vestibular de Economia da UFMG. Continuava trabalhando no banco e estudando na Universidade. Formou-se e logo prestou concurso para a função de gestora pública do Governo do Estado de Minas Gerais. Passou e foi empossada. Aperfeiçoou-se. Cresceu no emprego. E a menina nascida na Cachoeira dos Coutos, professorinha da escolinha rural da Passagem, correu mundo. A serviço, esteve nos Estados Unidos e em países da América Central. E também, já fazendo turismo, visitou várias nações da Europa.

Maria de Fátima Rodrigues, após 30 anos no serviço público estadual, aposentou-se. Retornou a Bom Despacho. Sua experiência e capacidade profissional lhe valeram um convite de Fernando Cabral para trabalhar na Prefeitura, onde é um dos expoentes do sucesso da atual administração municipal.

Trabalhei com a Fátima, na sala dela, por alguns meses, na prefeitura. A par de sua inteligência, cultura e competência profissional, encontrei nela um ser humano cordial. Uma pessoa prestativa, simpática e sincera, que vale a pena ser chamada de amiga.

Capítulo II

A epopéia das professoras rurais continua semana que vem com a história de quatro jovens, no Retiro dos Agostinhos, em 1973: Ilma, Margarida (Tita), Sandra do Marinho e Vilma.

Parabéns, Professores!

Parabéns a todos os meus colegas professores de Bom Despacho, pela passagem do Dia do Professor. Dia de comemoração e de reflexão. Dia de pensarmos e agirmos firmemente para conquistarmos diante da comunidade e dos governantes o reconhecimento do valor da classe ante nosso povo e nossa pátria! 

Tadeu Araújo é professor, escritor e fundador da ABDL



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