iBOM | A Primavera Secundarista: voz e vez dos estudantes



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Bom Despacho (MG), 23 de janeiro de 2018

A Primavera Secundarista: voz e vez dos estudantes

Imagem ilustrativa
Publicado em 05/10/2017 13:32:33

DENISE COIMBRA - Manhã de quarta-feira. Semanalmente, uma jovem estudante vem ao consultório e traz as suas inquietações e dúvidas sobre sua futura trajetória profissional. Ao sair, lança esta proposta: Escreva sobre a Primavera Secundarista ou Estudantil. Vale a pena fazer o registro desse movimento!

À noite, após o último atendimento, meus olhos miram a caixa de memórias da minha família. Uma fenda no tempo se abre e, com ela, sensações, sentimentos e lembranças saltam e aconchegam-se no meu colo e no braço da poltrona. As mais salientes afixam-se na parede formando um lindo painel da nossa história. Revejo meus avós, meus pais, meus tios, meus irmãos, além dos primos, sobrinhos e amigos numa conversa saudosa perfazendo cada linha descrita nas longas cartas, cada evento datado no verso das fotografias e cada frase curta escrita nos postais tão bem guardados. Antes que a fenda se feche, saúdo nostálgica aos que partiram antes do meu existir.

Ao revirar o fundo da caixa, minhas mãos esbarram numa carteirinha bastante amassada. Nela a foto e a assinatura do meu irmão Maurício, falecido ainda jovem. Surpresa leio: UMES (União Municipal dos Estudantes Secundários) - Bom Despacho. Meu irmão teve uma presença importante nela. Antes dele, o Fernando Humberto, o Brasinha, o Libério (irmão da Fatinha), o Zuca, o professor Tadeu, a Quitinha, o Carlos Alberto e o Rômulo. Depois dele, o Celio Luquini e a Sandra Gontijo, dentre tantos!

Imediatamente liguei para o meu irmão Gilberto. Ele contou-me que a UMES-BD era um espaço de socialização onde os jovens estudantes trocavam ideias sobre política, arte, cinema e música. “Buscavam ampliar o cenário cultural da cidade promovendo atividades culturais e realizando intercâmbios com outras entidades estudantis.” A sede era abaixo da Casa do Odílio, na Praça da Estação, rememora. Havia nela uma mesa de ping pong, além de livros que podiam ser lidos lá ou comprados com desconto significativo para os estudantes que freqüentavam as escolas de nossa cidade. Uma potência a ser cultivada! Contudo, foi desestimulada durante o período da nefasta ditadura militar. Surpreendentemente, ainda hoje, os desmemoriados e desconhecedores da face mais sangrenta e cruel da nossa história recente defendem o retorno dela. A abjeta ditadura. Ao que devolvo: Ditadura nunca mais!

Sobre a Primavera Secundarista? A jovem se referia ao movimento dos estudantes secundaristas ocorrido no final de 2016 nos estados do Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e outros. Poucos de nós tiveram o interesse de acompanhar ou conhecer esse movimento. Meu amigo Pinta Sabino, educador que é, se ler esta crônica entenderá em profundidade o que nomeio como orfandade desses jovens. Nós os abandonamos, numa luta desigual contra os abusos do governo Temer ao tentar aprovar à época a PEC 55 e a modificação do ensino médio. Estiveram sozinhos também na defesa da escola pública e o que ela representa. Ocuparam, limparam, pintaram, descobriram livros, mochilas e materiais didáticos guardados, mofados, numa confirmação do descaso, burocracia e irresponsabilidade com a gestão das escolas públicas no país. Fizeram propostas de participação e inovação, pleitearam vez e voz nos colegiados e assembléias escolares. E nós? O que fizemos? De novo. Nada. E o Governo? Mandou a polícia com cassetetes, bombas e balas para silenciá-los. Amordaçá-los. Contou também com o auxílio da justiça que autorizou a utilização de técnicas de tortura contra os estudantes. Ao invés de florescer, as flores da juventude, em inúmeras escolas públicas ou privadas do Brasil, elas estão murchando. Por quê? “Nunca Me Sonharam”, pode ser uma resposta. “Na voz de estudantes, gestores, professores e especialistas, o filme questiona como nós, enquanto sociedade estamos cuidando e valorizando a qualidade da educação oferecida aos jovens na fase mais sensível e transformadora de suas vidas.” Oxalá em cada escola pública ou privada situada em nosso município, por intermédio dos Grêmios Estudantis ou novamente a UMES/BD, uma nova história seja construída. Ao realizarem em conjunto atividades de cunho social, cultural e político, os estudantes bom-despachenses tornar-se-ão os novos protagonistas do enriquecimento educacional de nossa juventude. Dentro e fora da escola.

Uma fenda no tempo se abre. Antevejo minha bisneta e meu tataraneto remexendo a caixa de memórias da nossa família. Suas mãos esbarram numa folha amassada, esmaecida. Nela, o registro da utópica Primavera Estudantil. Antes que a fenda se feche, saúdo nostálgica, aos que chegarão depois do meu existir.

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



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