iBOM | Praça do Rosário: palco da cultura e da religiosidade de BD



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Bom Despacho (MG), 19 de novembro de 2017

Praça do Rosário: palco da cultura e da religiosidade de BD

Igreja do Rosário em Bom Despacho. (Foto: Ascom/PMBD)
Publicado em 29/08/2017 13:33:09

DENISE COIMBRA - “Estava à toa na vida e o meu amor me chamou” para ver o Congo dançar. Rodopiando, tamborilando os dedos no pandeiro, sanfona e tambor cheguei à Praça do Rosário. Palco e cenário multicolor da Festa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário. Festividade típica com seus rituais, liturgias católicas, ritmos tão envolventes e com as características peculiares do povo bom-despachense. Na plateia, olhos e expressões atentas, outras nem tanto. Nos cortes, muitos cantam, dançam, rezam com fé e devoção. Outros nem tanto.

Caminho em torno da praça observando os reis, as rainhas, os festeiros e o padre Cristiano. A diversidade e a alternância de sons me enlevam. Meu coração viaja no tempo. Reminiscências da minha infância percorrendo ruas, aguardando no portão de casa o som e a dança dos cortes. Recordo-me de meu irmão mais velho. Dizia-me ele que a gênese da Festa de Nossa Senhora do Rosário, em Minas Gerais, também está relacionada à história de Chico Rei de Vila Rica, ex- escravo liberto. O Rei Congo teve uma atuação política em prol da libertação e dignificação do povo negro e contra o sistema escravista.

Explicava-me também que o Reinado incorporou elementos da Congada, essa de origem diversa e controversa, criada no Brasil colônia. Tempo em que negros escravizados fugiam das senzalas e encontravam-se com os índios, nas matas. O Catupé, com seus cânticos em louvor a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, mescla alegria e crítica à exploração e ao sofrimento dos negros. E me pergunto: quem sabe, “se lembra ou se importa” com isso?  

Se meu irmão estivesse vivo, comprovaria com tristeza que, após três séculos, ainda não abolimos o racismo, a violência, a segregação social e econômica contra os negros. Há quem acredite que a realização de políticas públicas de inclusão social, inclusive o sistema de cotas em universidades públicas, e a inclusão de cotas para os negros nos concursos públicos da Prefeitura de Bom Despacho não seja necessária.

Novamente reverencio o Congo: seus chocalhos, reco-recos, cuícas, pandeiros e tamboril me fazem pular. Para cima, viva Nossa Senhora do Rosário e, para baixo, viva São Benedito. Visto suas roupas bastante coloridas e a alegre homenagem torna-se minha também. Sigo adiante, mãos dadas à Guarda dos Marinheiros. Olhos fixos nas suas vestimentas. A capa esconde a espada tanto quanto o silêncio, escamoteia o racismo, a desigualdade social. O azul de suas vestes são reminiscências do mar. Na batida grave dos tambores, meu coração, num lamento surdo, relembra os malditos navios negreiros de onde ecoavam os gritos de dor dos escravos e os cantos de sua resistência e busca de liberdade. Quem sabe, “se lembra ou se importa” com isso? Novamente pergunto.      

Esvaziado o medo em nossos corações ocuparemos de novo as praças, os locais públicos? Espaços de cidadania e convivência, cuidaremos melhor uns dos outros - almejo sonhadora.

Ao refletir sobre a missão conga e o sincretismo religioso no Brasil, faço uma digressão talvez singela, quiçá utópica de que nós, brasileiras e brasileiros, independente de posições e matizes político-partidários, deveríamos conversar mais, planejar bastante e realizar inúmeras ações de cidadania que fossem capazes de barrar a roubalheira e a pilantragem presentes no governo federal e no Congresso Nacional que prejudicam a nossa vida atual e futura. Que pudéssemos proteger a democracia e a ética tal e qual a guarda do Moçambique protege o reinado na tradição religiosa! Almejo, indignada.

No meio da tarde, sozinha e aflita, caminho novamente pela praça, nosso glorioso relicário. estendido pelos jardins e emprestando cor às flores. Ajoelho e toco de leve o manto de Nossa Senhora do Rosário!

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



Rua do Rosário, 72 – Centro – Fone (37) 3522.2361 – Bom Despacho - MG
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