iBOM | A benzedeira do Córrego da Areia e a simpatia da ferradura



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Bom Despacho (MG), 22 de setembro de 2017

A benzedeira do Córrego da Areia e a simpatia da ferradura

Imagem ilustrativa
Publicado em 25/08/2017 17:31:13

DENISE COIMBRA - D. Fia do Córrego da Areia era muito amiga de minha mãe. Considerada uma das melhores benzedeiras em nossa cidade, as pessoas buscavam nela a cura de suas doenças. Espinhela caída, erisipela, mau jeito, quebranto ou “mau-olhado”, dor de garganta, cobreiro, lombriga, verruga, sapinho, picada de cobra, osso partido. Muitos pais e mães levavam seus filhos logo que nasciam para receberem sua benzedura e crescerem sadios.

Inveja, depressão e desânimo, rezas contra perigos e inimigos, para abrandar o coração de alguém, para afugentar o mal da casa e benzimento para os endemoniados eram também as razões pelas quais muitos adultos a procuravam.

Meu irmão pequeno, tal e qual muitas crianças, morriam de medo dela. Eu? Ficava encantada. Quando D. Fia rezava em mim, com o seu rosário em torno do meu corpo, eu me sentia melhor. E saía da casa dela correndo e curada. Hoje, quando penso na minha escolha profissional ter sido a Psicologia, reflito se ali eu já intuíra a força e a proteção das palavras na vida humana.

Certa feita, D. Fia descobriu-me dentro do quarto dela admirando os ramos de arruda, o rosário, o carvão, a faca, a tesoura, a vela, a água, o sal, as ervas, a Bíblia e alguns fios de linha. Meu querido amigo, “Zé Mata Feio”, já morto, estava comigo e cochichou: “um arsenal de guerra que ela tem, só isso para fazer sumir o tinhoso.” Nesse momento, ela puxou-me pelo braço e contou-me a seguinte história:

“- Seu bisavô Felizardo fazia os melhores carros de boi da região e por causa disso muitos fazendeiros encomendavam também a feitura de ferraduras para colocarem nos currais e em cima da porta da casa para espantar os maus espíritos. E que não eram poucos. Vacas morriam na hora de parir com o bezerro virado ao contrário. As galinhas botavam ovo choco durante uma semana. A água do córrego, quando colocada no balde, evaporava antes mesmo do fogo ser aceso. Então, seu avô mandou me chamar porque ele achava que as ferraduras não estavam evitando os espíritos maus. Passei o dia andando em volta da casa, até que percebi um jovem muito bonito que entrava e saia do local onde seu bisavô trabalhava. Fui até lá e percebi que ele tocava a ferradura e gritava uma maldição. Fiquei arrepiada. Aquela voz não era humana. O tom era estranho e eu não entendia nenhuma palavra. Eu tremia enquanto olhava para ele. Ali, na minha frente, o diabo, o tinhoso, o anjo que caiu do céu e que provocava os homens e a mulheres a fazerem coisas ruins.

Numa distração dele peguei várias ferraduras e coloquei todas em volta do seu pescoço. E rezei forte nele. Desesperado com o poder da reza e o peso das ferraduras prometeu não incomodar mais ninguém. Daquele dia em diante, iria embora para as terras do Deus me livre! Terra conhecida pelo solo árido, próxima a Martinho Campos. Desde então, correu a notícia de que o diabo e os maus espíritos tinham ido embora dali por causa da simpatia da ferradura e da minha benzeção”, encerrou.

Nunca contei essa história para ninguém. Nunca mais esquecerei a benção e a frase de D. Fia para mim: “Benzer é tornar Bento ou Santo. É invocar a energia divina porque onde tem oração, tem Deus.” E ele está sempre ao lado do povo, da tradição e da cultura popular, reflito saudosa de uma infância rica em experiências e descobertas.

Para finalizar, leitor, lembro-lhe que agosto é o mês do folclore. Reitero aqui minha deferência a Luís da Câmara Cascudo, que colheu no seu cesto literário o tesouro das lendas brasileiras e assim nos fez mais ricos e sensíveis na demonstração e divulgação da nossa cultura. Oxalá seja esta pequena crônica mais uma invenção, pura ilusão transmitida de geração a geração!

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



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