iBOM | O príncipe dos fotógrafos bom despachenses



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Bom Despacho (MG), 21 de setembro de 2017

O príncipe dos fotógrafos bom despachenses

José Pessoa Marra e dona Dinorah
Publicado em 24/08/2017 13:36:41

TADEU ARAÚJO - José Pessoa Marra, por mais de 40 anos, de 1940 a 1980, fotografou as pessoas, os cenários e a alma bom-despachense. Foi o mais perfeito e o maior na arte da fotografia entre nós. Levando-se em conta a época e os recursos com que atuou. Deixou um patrimônio histórico de imagens de nossa terra, que merecia fazer parte de um museu de imagens da cidade.

José Pessoa era filho de Joaquim Alves Pessoa e Maria Elvira Marra. Nasceu em Bom Despacho, no dia 25 de julho de 1915. Levado pelo pai, mudou-se logo para Patrocínio-MG, terra de sua mãe, onde viveu até os 25, 26 anos. Lá pela segunda metade dos anos 40 ou 1941, trazendo em sua companhia a esposa Dinorah, o filho Iran com um ano de idade, três irmãs solteiras e o velho pai, viúvo e doente, retorna à terra natal, que deixara apenas com três meses de idade. Seu primeiro ganha-pão na nova residência adveio-lhe certamente do trabalho de fotógrafo. Conseguiu depois um emprego de auxiliar de escritório da Companhia Industrial Aliança Bomdespachense (a fábrica de tecidos). Continuava com os trabalhos fotográficos, executados com arte e bom gosto, que lhe acrescentaram algum reforço aos rendimentos. Suas fotografias são vistas até hoje nas residências, jornais da época, sobretudo na Revista do Cinquentenário da Cidade de 1962. Aprovado em concurso público e com provimento para escrevente na Coletoria Estadual desta cidade, exerceu o cargo com eficiência e honradez até aposentar-se em 1974

No conjunto de seus traços psicológicos, evidenciava-se a índole forte, o caráter firme, a franqueza de palavras e autenticidade. Essa aparente aspereza de temperamento não o impedia, entretanto, de ser extremamente acolhedor, principalmente com os menos afortunados. Leal com os amigos, era capaz de sacrificar-se para servi-los. Excelente chefe de família, além de seis filhos, adotou também seu afilhado Fernando, com apenas dois anos de idade. Fora do lar uma paixão humana o dominava: as causas sociais e filantrópicas. Foi dedicado vicentino e presidente de conferência e do Círculo Operário.

Embora católico convicto, filiou-se à Loja Maçônica “Ação e Dignidade”, da qual foi tesoureiro nos anos de 1969 a 71.

De todas as ações sociais de que participou, uma merece destaque especial pelo toque de grandeza de que se revestiu: A Provedoria da Santa Casa de Misericórdia da Irmandade de Nossa Senhora do Socorro de Bom Despacho, cargo que exerceu com dedicação e eficiência ao longo de 18 anos, época em que, ao lado do Dr. Nicolau Teixeira Leite, liderou a construção do Hospital da Santa Casa que dobrou a sua capacidade de atendimento.

Amante da arte em todas as suas manifestações, fazia parte do grupo do tetro amador da cidade. Juntamente com Nicolau Leite, Leda Hamdan, Francisquinho do Chico da Afonsina, Consuelo Pessoa, Teodora Nogueira Costa e outros, participou da apresentação de peças famosas da época em Bom Despacho e noutras cidades de Minas Gerais, provocando o entusiasmo das platéias.

Pelo seu excepcional trabalho desenvolvido em favor da comunidade, em sessão realizada no dia 30/05/70, a Câmara Municipal de Vereadores outorgou-lhe o título de Mérito Municipal. Ainda em reconhecimento à memória do ilustre filho, o chefe do Executivo Municipal, sancionou a Lei nº 951, de 1984, que dá o nome de Rua José Pessoa Maria a uma rua no centro da cidade.

Vítima de infarto fulminante, sem tempo de qualquer assistência médica, faleceu em sua residência na manhã de janeiro de 1981, deixando a viúva Dinorah e os filhos José Iran, Ivan, Clarice, Elizabete, Afonso Celso, Carlos Henrique e Fernando.

Num jazigo, no “Parque da Esperança”, à sombra de frondoso pequizeiro, que floresce e frutifica ao lado de sua sepultura, sob a plenitude das noites do silêncio, os corpos do Príncipe dos Fotógrafos de Bom Despacho, o de sua esposa Dinorah e do filho Ivan, dormem o sono dos encantados, à espera da Ressurreição para uma vida nova e definitiva no seio do Pai.

(Texto adaptado e resumido das páginas 28, 29 e 30 da obra “Nos caminhos da política” dos escritores Luciene Soares Campos e David Andrade.)

Bom Despacho de Ontem
O desabafo de José Pessoa

 

Quando provedor da Santa Casa, nos anos 70, José Pessoa Marra fez a maior obra de construção desde sua refundação nos anos de 29 e 30. Com a ajuda do Dr. Nicolau Leite e recursos angariados entre os bom-despachenses e apoio da Maçonaria, ele levantou o Hospital da Santa Casa, que dobrou a sua capacidade de atendimento. Meu irmão Maurício trabalhava como secretário na sala do José Pessoa. Ele costumava assistir a uma cena repetida todos os dias. A irmã Catarina, uma das fundadoras do Asilo São José, a par de ser dinâmica, era também muito palpiteira. Era o Pessoa chegar para fiscalizar as obras do hospital e ela ficava em volta dele pela construção afora, com seus palpites: - Sô Pessoa, eu acho que seria bom o senhor colocar um porta maior aqui. Ficava bom se o senhor colocasse mais janelas nos corredores.. Sô Pessoa, fazer uma cozinha maior vai ficar muito bom.

Zé Pessoa ia andando, escutando, às vezes se irritando com a Irmã Catarina. Um dia, assoberbado de contatos, de acertos, com compras de mercadorias para a obra, ele estava extremamente nervoso. A ponto de explodir de preocupações. Aí, o Maurício, disse que chega a Irma Catarina com suas sugestões sempre acompanhadas com o “ficava bom, sô Pessoa isso, isto, aquilo” !

Neste dia ele perdeu a paciência e em tom nervoso disse:

- Irmã Catarina, a senhora sabe pra que eu tô bão hoje ?

E ela com sua voz fina e delicada de uma quase adolescente:

- Não sei, sô Pessoa, não sei! Pra quê?

E ele, bem enérgico :

- Eu tô bão hoje, irmã, prá mandá um pessoa ir chupá prego!

Entre “cruz/credo, cruz/credo” e “credo em cruz”, Irmâ Catarina foi se retirando e não voltou mais para mostrar para o Pessoa o que ficaria bom na construção do Hospital.

Foi um sossego!

Tadeu Araújo é professor, escritor e fundador da ABDL



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