iBOM | A carta da professora Maria Guerra que nunca foi lida



140x140
Bom Despacho (MG), 23 de novembro de 2017

A carta da professora Maria Guerra que nunca foi lida

Imagem ilustrativa
Publicado em 18/08/2017 17:33:58

DENISE COIMBRA - O destinatário da carta era Antônio Albino da Silva, meu avô, o pai da minha mãe. Conhecido como “Tõe” do Flávio. Lavrador tal e qual seu pai, meu avô trabalhou muitos anos na fazenda Boa Vista. O proprietário dela era o fazendeiro conhecido como Doreco.

A carta fora escrita em 1940 pela professora Maria Guerra. Dá para imaginar o motivo, leitor? Ela perdera mais uma aluna, dentre tantos, para ajudar a família nas atividades caseiras ou rurais. Fato corriqueiro e lamentável, ainda presente nos dias atuais, provocado também pela crença de que a leitura “não enche a barriga de ninguém”.

Minha mãe havia abandonado a escola aos 10 anos para cuidar do irmão, um bebê de nove meses, depois que perderam a mãe. Minha avó Luíza adoeceu após o parto. Alguns meses depois, ela faleceu.

Minha mãe adorava estudar. Todos os dias ela caminhava léguas para poder aprender. Contou-me que quase morreu afogada num córrego que ela tinha que atravessar para chegar à escola. Muito antes da menina que ficou famosa na Internet, minha mãe, ao debater-se na água para não afogar-se, jogou o caderno e o lápis para longe do córrego, deixando afundar o embornal onde carregava a rapadura que adoçaria o café servido todos os dias em casa e o único pedaço de toucinho que a mãe usava para untar a panela e cozinhar os alimentos. Naquele dia, a família comeu apenas alimentos crus e café coado e sem doce. Mas a menina, ainda que assustada, estava muito feliz, por ter podido ler e escrever. Aquele ato dera-lhe a confirmação de que a leitura “não enche a barriga de ninguém”, mas alimenta a vontade de conhecer, aprender e sonhar...

D. Maria Guerra soube disso no momento em que encontrou aquela menina de vestido roto e descalça sentada na primeira fila de carteiras. Seus olhos castanhos brilhavam à medida que ia reconhecendo as letras no quadro e no caderno. As perguntas que a menina fazia deixaram-na impressionada com sua inteligência e sensibilidade. Por isso, ela queria que o pai da menina encontrasse outros meios de obter ajuda sem sacrificar a chance dela completar os estudos primários.

A professora queria evitar o que acontecera com o meu avô. Ambos nasceram no mesmo ano. 1889. Ele cresceu analfabeto e ela formou-se professora. O que a incomodava muito. E a ele será que também não? Ela talvez se perguntasse sobre isso. Muitas crianças eram proibidas de estudar, não só no Engenho, mas em Bom Despacho e inúmeras cidades brasileiras.

Porque D. Maria Guerra escreveu uma carta a um analfabeto? Minha mãe arriscou dois raciocínios. Talvez a professora pensasse que seu pai gostaria de aprender a ler aquele papel desenhado com letras tão bonitas e cheias de estranho significado. Pensou também que meu avô poderia pedir à filha que lesse a carta. Quem sabe, o pai não reconsiderasse e a mantivesse na escola? Mas não foi isso que aconteceu. O pai preferiu guardar a carta em segredo.

Pouco antes de morrer, meu avô entregou a carta à minha mãe e disse-lhe: “Filha, eu queria te dizer que embora eu não soubesse ler, eu entendi o gesto da professora Maria Guerra. Ao mandar a carta para mim, ela queria deixar registrado o apreço dela ao seu esforço de estar na sala de aula todos os dias, apesar de tantos obstáculos. Acima de tudo, aos 89 anos, e já perto de morrer, eu sei que ela queria garantir a você o direito de freqüentar a escola. E a mim? Ela me ofereceu a palavra. Com ela, a chance de me alfabetizar. E, tornar-me um homem livre”.

Esse texto é uma homenagem à minha mãe, leitora contumaz. À D. Maria Guerra (professora com atuação inestimável e inesquecível na Educação) e ao Geraldinho do Engenho por não nos deixar esquecer disso.

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



Rua do Rosário, 72 – Centro – Fone (37) 3522.2361 – Bom Despacho - MG
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal de Negócios.