iBOM | O caso de Antônia, a mulher dos cabelos cor de fogo



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Bom Despacho (MG), 21 de setembro de 2017

O caso de Antônia, a mulher dos cabelos cor de fogo

Imagem ilustrativa
Publicado em 03/08/2017 08:14:19

DENISE COIMBRA - Alguns dias atrás estive na casa de um grande amigo, conhecedor de inúmeras histórias ocorridas na região Centro-Oeste. Contou-me uma, de deixar os pelos eriçados e os cabelos em pé, como diz o popular ditado. Além de uma mórbida curiosidade, eu escondia um motivo ainda não declarado. Escrever uma história de terror para ser publicada na Coletânea Gandavos produzida pelo escritor Carlos Lopes, de Pernambuco. Ela deverá ser publicada no início de 2018. Não deu outra. Meu amigo sentou-se na varanda do rancho, acendeu um cigarro de palha, derramou quase meio copo de pinga goela abaixo, pigarreou, diminuiu a luz do lampião e contou-me esta sinistra estória.

Em 1889 ou 1890, numa região próxima a Bom Despacho, vivia uma linda mulher. Quase ninguém a conhecia. Uns afirmavam que ela vivia do lado do rio São Francisco, outros insistiam que ela vivia do lado do rio Picão. Antônia era seu nome e incomparável era a sua beleza. A mãe morrera logo após o nascimento dela. O pai sumiu durante muitos anos e voltou no dia em que Antônia completara dezoito anos. Ele nada disse e ela também nada perguntou. Um dia, três rapazes que moravam próximo à casa deles desapareceram sem deixar vestígios. Perguntavam-se, todos, se os jovens não teriam se afogado no rio, ou se saíram em busca, ainda que improvável, de ouro na região de Onça do Pitangui. Não obtiveram resposta convincente. Mas insistiram. Passaram também a espreitar a casa de Antônia em busca de alguma informação ou pista que pudessem ajudar a localizar o paradeiro deles. Nada disseram. Nem ela, nem o pai. Desistiram da busca. Entretanto, numa manhã de domingo, uma jovem enamorada de um deles e inconformada com o sumiço inesperado dos três rapazes, voltou a observar a casa de Antônia. Durante três dias seguidos assim ela fez. O que ninguém sabia é que a jovem sempre soube que os três rapazes iam todos os dias até o rio para ver Antônia banhar-se nele. A nudez dela provocava um desejo ardente neles e um ciúme intenso nela. Por isso, a jovem os seguia do arraial até o rio e por isso também ela invejava a bela mulher dos cabelos cor de fogo. No final do último dia, ela observou uma movimentação estranha pela casa. De dentro dela pareciam sair gemidos abafados. Apreensiva, aproximou-se, dando a volta na casa. Os sons, agora bem mais altos e agudos doíam-lhe os tímpanos. Apavorada, levantou os pés, espichou os olhos pela janela pressentindo o horror que acontecera ali. Não teve tempo de certificar-se. Algo a acertou com uma força descomunal e ela caiu desmaiada.

Quando acordou, ficou em choque. Não conseguia mexer. Não conseguia falar. Nunca soube quanto tempo ficou ali, estarrecida, olhando para aquela parede. À sua frente, emparedados, os três rapazes. Pareciam vivos. Pareciam mortos. Uivos, gritos, choros. Nunca soube se deles ou dela. De repente, foi arrastada pelos cabelos para fora de casa. Antônia ordenou-a que fosse embora dali e nunca mais voltasse. Se retornasse, faria companhia aos três rapazes. Nunca mais voltou ali, muito menos para sua casa. A última notícia dela veio de um sanatório em Barbacena, pouco antes de ser fechado. Um familiar distante soubera que ela fora encontrada muitos dias depois de morta, num abandono doloroso, tipicamente ofertado aos loucos e incompreendidos. Ela estava de pé. Olhos estatelados. Pareciam fixar a parede do quarto, na qual, durante anos dera pancadas fortes e vigorosas, gritando em vão, para que retirassem dali os três amigos emparedados.

Especula-se que o pai, num rompante de paixão e loucura por Antônia, possuiu-a. Desde então, a mulher para livrar-se dessa odiosa lembrança, matava os homens que a desejassem. Poucos souberam dessa triste e trágica história.

Este texto é uma homenagem aos contos de terror: A Mulher da Gargantilha de Veludo, de Alexandre Dumas, e o Gato Preto, de Edgar Allan Poe. Foi escrito no dia 25 de julho, dia do escritor.

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



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