iBOM | Até quando vamos aceitar a violência contra a mulher



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Bom Despacho (MG), 21 de setembro de 2017

Até quando vamos aceitar a violência contra a mulher

Imagem ilustrativa
Publicado em 26/07/2017 10:17:47

DENISE COIMBRA - Há três semanas, por intermédio das redes sociais e do Jornal de Negócios, leio notícias recorrentes sobre a violência contra mulheres em Bom Despacho. Elas foram agredidas por homens: marido ou namorado. Inadmissível calar-me diante de tal situação. Desde menina, vivencio cotidianamente a violência contra a mulher. Infelizmente, ainda na maturidade, sou testemunha de sua presença na vida atual, ao fazer o acolhimento de mulheres e compartilhar contundentes histórias durante o exercício da minha profissão.

Li repetidamente as notícias e saí em busca de argumentos para entender e contrapor-me a tal brutalidade. Lembrei-me de um artigo lido há algum tempo. Maria Rita Kehl, psicanalista a quem admiro, escrevera sobre a Delicadeza

E o que isso tem a ver com a violência contra as mulheres ocorrida aqui em Bom Despacho? Tudo. Arrisco-me afirmar, leitor. Transcrevo um pequeno trecho que nos ajudará a entender a ideia central do texto: a delicadeza não é intrínseca ao humano.

“Erramos ao chamar os atos que nos repugnam de desumanos. O homem, não o animal, usa de violência contra seu semelhante. O homem inventou o prazer da crueldade: o animal só mata para sobreviver. O homem destrói o que ama – pessoas, coisas, lugares, lembranças. Se perguntarem a um homem por que razão ele se permitiu abusar de seu semelhante indefeso ele dirá: eu fiz porque nada me impediu de fazer. O abuso da força é um gozo ao qual poucos renunciam.”

Daí a necessidade de criarmos regras, condutas e costumes que nos levem em direção à delicadeza e que nos ajudem a preservá-la porque ela deve ser a finalidade do nosso viver em comunidade. Sem ela, a nossa vida torna-se insuportável e inviável. Numa retrospectiva rápida, lembremos das inúmeras guerras e abusos a que submetemos a humanidade ao longo de nossa existência. As conseqüências delas? O atraso econômico, social e humano em muitos países. E o pior. Paira sobre a nossa cabeça a ameaça de uma hecatombe nuclear. O motivo? Falta de delicadeza das “grandes potências” umas com as outras ou contra as que não são tão poderosas. “O que dá na mesma.”

Por isso também eu retomo a questão da delicadeza como contraponto à violência. Mas não quero caminhar na direção em que o homem deve proteger a mulher, tal e qual vemos em nossa sociedade. Proteger não significa necessariamente respeitar. Haja vista os abusos cometidos pelo Estado, a quem se atribui o dever de proteger os cidadãos brasileiros. Volto às notícias lidas por mim. Quando assistimos impassíveis a esse tipo de violência cometida contras as mulheres em nossa cidade, nós confirmamos ou desculpamo-nos de nossa humanidade violenta e cruel? Quais são os valores ou preconceitos que nos fazem aceitar tamanha estupidez?

Quando desqualificamos o ato do violador ou agressor reafirmamos a cultura da violência contra a mulher. Qual é a educação dada aos meninos? Eles se transformarão em homens delicados ou brutos? Qual é o significado da delicadeza em nossa cultura tão machista?

Quando um homem decide bater, subjugar, maltratar uma mulher porque ele pode ou não teve nada que o impedisse de fazer tal hediondez, devemos nos perguntar quais são mecanismos sociais que estamos promovendo para minimizar os efeitos dessa crença individual? Qual é o poder que, ao longo do tempo, atribuímos e concordamos que os homens tenham sobre as mulheres em nossa cultura e sociedade? Como educamos os meninos ou os jovens no trato das questões domésticas?

Se eu pudesse faria estas perguntas aos homens envolvidos nos trágicos episódios. As respostas, certamente, não seriam simples. Talvez apontassem para a necessidade de novas dimensões das relações construídas entre os gêneros, tal e qual a refinada canção de Chico Buarque, alardeado no Brasil, como profundo entender da alma feminina: “Depois de te perder, te encontro, com certeza. Talvez num tempo da delicadeza...”.

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



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