iBOM | A velhice esquecida em nossa querida Bom Despacho



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Bom Despacho (MG), 22 de setembro de 2017

A velhice esquecida em nossa querida Bom Despacho

Imagem ilustrativa
Publicado em 19/07/2017 10:17:47

DENISE COIMBRA - Na segunda-feira, 10 de julho, li uma notícia impactante: “Morre a professora Ecléa Bosi, idealizadora do programa da USP (Universidade de São Paulo) para a terceira idade.” Quem conheceu o programa sabe tratar-se de uma iniciativa nobre e única no mundo porque os velhos estudam ao lado dos jovens. São mais de 9 mil alunos com idade superior a 60 anos freqüentando a melhor universidade do país, sem exclusão. Essa, tão comum no reino da Educação e no mercado de trabalho. Iniciativa que contradiz os costumes e as práticas de um Brasil que insiste em manter a dicotomia: rico e pobre, branco e preto, homem e mulher, jovem e velho, em detrimento do respeito à diversidade que deve ser garantida e respeitada por meio de políticas públicas que apoiam o crescimento e o desenvolvimento social e econômico do nosso país e também da nossa cidade.

Cooperar mais do que competir

Lembrei-me dos Escoteiros que estiveram comigo no sábado, durante evento na Praça da Matriz. Esticaram o barbante, cortaram e colaram poemas e os estenderam no Varal de Poesias. Uma forma de leitura do mundo e da cidade que insisto em preservar. Recolheram alimentos para doação ao Lar de Idosos São José. Intrigada, pergunto-me: como permitimos, numa região rural tão rica quanto a nossa em produção de arroz, café, leite, ovos, polvilho, milho, carne, verduras, frutas e legumes, além da presença de supermercados bom-despachenses, a existência de um lugar que precisa de doações para alimentar os que ali residem? Desde menina, assisto essa realidade. Todos nós deveríamos trabalhar para a criação de uma rede permanente de apoio ao Lar de Idosos São José e às suas necessidades básicas.

Bom Despacho, ao esquecer-se de seus velhos e velhas, é uma cidade sem memória? Quem são aqueles e aquelas que lá estão? Os que trabalharam pelo enriquecimento econômico e social da cidade não têm mais valor? Denominações tais como terceira idade e idoso são eufemismos diante da negligência a que sujeitamos os nossos velhos e velhas? Incomodada, compartilho esta reflexão.

O tempo vivo da memória

Ecléa Bosi, morta aos 80 anos, foi professora, escritora e psicóloga. Um espelho para mim. “Uma voz dedicada aos explorados e esquecidos” de um país que nos envergonhou tanto nesta terça-feira, quando o Senado aprovou a reforma trabalhista. Enalteço aqui a luta e as atitudes destemidas das mulheres senadoras, que insistiram em posicionar-se contrariamente ao jogo político com cartas marcadas. Desde sempre. O gigante que cantava o futuro apequena-se a cada dia e com a nossa conivência. O silêncio e o vazio de nossas praças e ruas, lugares essencialmente consagrados à manifestação do povo contra as arbitrariedades dos governos confirmam a baixa disposição para enfrentarmos os abusos cometidos. A pior terceirização é a transferência de direitos de um povo aos políticos, que são empresários de causas onde quem ganha são apenas eles e seus representantes, no Congresso Nacional: os lobistas. Isso mesmo, os homens que “são os lobos” dos homens. Esta é também uma boa definição das práticas canibais no Brasil capitalista selvagem. Ouvi de um senhor na feirinha dos produtores, no sábado. Concordei.

Um povo que teme ocupar o lugar que é seu perde a sua capacidade de enraizamento porque morre dentro dele a sua ligação com a história e as conquistas sociais ao longo da sua existência. É preciso cuidar e preservar a vida dos “trabalhadores da memória viva da sociedade porque a existência atual deles não produz bens materiais”, fato esse que aprendemos a supervalorizar no sistema capitalista vigente. Registro o que afirmou José Saramago, escritor português, morto aos 87 anos, a respeito das coisas boas de sua vida: o reconhecimento literário, aos 60 anos e o amor vivido com Pilar, aos 64 anos. E assim encerro: envelhecer o espírito, ao contrário do apregoado, é fortalecê-lo para a travessia e conquista da eternidade, muito antes da morte!

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



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