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Bom Despacho (MG), 22 de setembro de 2017

O sonho do pai pode transformar-se num pesadelo para o filho

Imagem ilustrativa
Publicado em 06/07/2017 08:56:24

DENISE COIMBRA - Na quarta-feira, 28/6, testemunhei um diálogo entre pai e filho que não pude deixar de compartilhar. O tema? É tão antigo quanto atual: a escolha profissional a ser feita na juventude. O sonho do filho torna-se um pesadelo para o pai. Vejamos:

“Pai, eu não entendo porque tenho que escolher uma profissão agora, eu ainda não tenho 17 anos?”

“Por isso mesmo filho, quanto mais cedo você decidir, melhor para você!”

“Mas, pai eu não tenho a menor ideia do que eu gostaria de fazer, como vou escolher uma profissão para mim, no final deste ano?”

“Filho, não é possível que você não tenha alguma ideia? Todo mundo tem que ter uma profissão!”– respondeu exasperado o pai.

“Claro que é possível, pai! Só que eu não tenho uma ideia, eu tenho muitas e todas me servem. Posso sonhar em ser o que eu quiser, não é o que você diz? Então por que eu não posso ser tudo o que estou pensando? Eu tenho que ser o que você sonha para mim?”

Silêncio, como se um século houvesse passado. Eu até já recomeçava a minha leitura quando ouvi o jovem gritar:

“Você não deveria estar preocupado com a profissão que vou exercer. Deveria estar preocupado com a vida que eu quero viver!” E saiu batendo a porta da sala de jantar. O pai, atônito, o seguiu. Logo após ele voltou. Abalado e por saber que eu trabalho com orientação profissional pediu-me que escrevesse sobre o ocorrido e não quis estender o assunto. Voltei para casa. Imediatamente comecei a escrever este artigo e por isto, leitor, dirijo-me também a ele.

É preciso prestar atenção na fala desse jovem. Nela há uma indagação sobre a vida. Ao considerá-la, ele terá a possibilidade dele construir o seu lugar no mundo. A profissão é parte importante desse processo, meu querido amigo! O que o seu filho quer e pode estar precisando de ajuda é na construção de um projeto de vida. Mas para isto é preciso descobrir-se, ainda que desagradável. É necessário angustiar-se, pois a angústia instiga, motiva.

E ele está tentando. Por isso ele quer tudo, ele pode tudo. O momento é de explorar o mundo, também no plano das ideias. “Dê linha” ao que ele está pensando ou sentindo. Ele precisa sentir-se reconhecido, apoiado.

A adolescência é também fase de transição, muitas vezes repleta de ambigüidades e ambivalências, excessos e desmedidas. O jovem não se percebe mais como era e não sabe quem é. Quiçá, quem será. Seu filho tem razão quando diz que não entende porque tem que escolher uma profissão aos 17 anos. Aliás, ele tem inúmeras razões, mas você não quer ou não pode ouvir, porque está preocupado com o futuro dele. E ele nem entende o presente em que vive! Esteja próximo e o ajude a identificar seus interesses, suas habilidades. Estimule a sua potência criativa, a sua curiosidade. O que ele quer pode não estar apenas no mercado de trabalho, mas no mundo do trabalho, eis uma diferença significativa para que ele se situe em sua (des)orientação profissional.

Converse com ele sobre os valores, as crenças existentes no âmbito familiar e sobre as circunstâncias atuais do país e da cidade. Isso é importante para que ele possa entender o contexto social e econômico vigente. Tal entendimento poderá ajudá-lo a não se sentir isolado ou incompreendido. Fale com ele sobre o seu trabalho, a sua vida. Estimule-o a conversar com outras pessoas sobre a profissão que escolheram. Eles são felizes ou estão satisfeitos com o que fazem? Lembro-lhe de uma frase tão antiga quanto atual: “são as perguntas que movem o mundo.” E por meio delas, seu filho fará a melhor escolha para ele. Infelizmente, no consultório, testemunho diariamente o contrário: o sonho do pai torna-se o pesadelo do filho!

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



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