iBOM | Semeando no Campo fértil da cidadania em Bom Despacho



140x140
Bom Despacho (MG), 19 de novembro de 2017

Semeando no Campo fértil da cidadania em Bom Despacho

Imagem ilustrativa
Publicado em 29/06/2017 17:52:12

DENISE COIMBRA - Há dois anos, no dia 19 de junho, nascia o grupo Semeando no Campo. Duas moradoras, cujo sofrimento emocional beirava o insuportável, procuraram atendimento num dos PSF’s do Campo. Durante muitos anos, essa região foi conhecida como Campo da Aviação, porque ali existiu um aeroclube. Por que mudaram o nome de um lugar cuja importância histórica não deveríamos nunca esquecer? Afinal, escolher um nome para alguém ou alguma coisa é sempre um ato de amor. Onde está o amor ao Campo?

Lá também, duas mulheres, no início do século passado, encontraram um campo fecundo para a realização de um desejo: pilotar aviões. Leda Handam e Leda Vaz não se conformaram com o “lugar designado” para elas. Foi um posicionamento muito valoroso para ser ignorado pelos bom-despachenses, principalmente pelas mulheres. Por isso, também é que entrelaço a história dessas quatro mulheres. Pioneiras, apesar dos motivos e situações vividas bastante distintas, num sentido amplo, buscaram garantir os seus direitos.

As duas mulheres residentes no Campo, ao serem acolhidas pelo Programa de Promoção e Prevenção à Saúde da Família, entenderam que a busca delas por um lugar em que pudessem levar suas demandas e inquietações era legítima. De alguma forma, queriam dar seu testemunho por meio do sofrimento a elas impingido.

Ao mesmo tempo perceberam o potencial de apoio que o serviço oferecia e decidiram convidar outras mulheres para participarem do grupo. Ele cresceu e chegou a ter 18 participantes. No início “era só choro, muitas lágrimas e muito desespero”, relata uma delas, numa conversa recente que tivemos. Entretanto, à medida em que os encontros aconteciam, “as dores e os sofrimentos iam diminuindo. Da escuridão total veio a luz no fim do túnel,” completa.

Ao refletirem, dialogarem e buscarem soluções para os conflitos sociais, o alcoolismo e a dependência química vivenciados no âmbito familiar, essas mulheres irmanaram-se de tal forma que o compartilhamento de suas experiências tornou-se essencial. E isso fez diferença na vida delas. Algumas participam do grupo desde o início e ainda aguardam ansiosas o dia do encontro semanal. Sentiram-se acolhidas e querem também acolher.

Atualmente, além de contar e ouvir suas aflições e frustrações, acrescentaram a realização de dinâmicas e teatro, o que permitiu que o sorriso e a alegria voltassem a fazer parte da vida delas, também fora do grupo.

Ao reviver e narrar a sua história, o grupo tornou-se terapêutico. Tais resultados se devem aos dois anos de convivência coordenada pelo psicólogo Betho Luiz, que é muito querido por elas. Há gratidão e respeito enormes pelo trabalho realizado por ele. Por causa disso também, o grupo Semeando no Campo muitas vezes já reúne-se sem a presença de Betho. O que demonstra maturidade e protagonismo essenciais para a continuidade deste tipo de vivência, além do apoio familiar e do fortalecimento de vínculos.

Aproveito para parabenizar ao grupo pelos dois anos de existência. Conforta-me saber que ele está semeando no campo frutuoso do bem viver comum. Sinto-me honrada por participar de uma experiência tão rica quanto bela em solidariedade e humanidade, ainda que única, em nossa cidade, arrisco a afirmar. Se errada, corrijam-me. Alegrar-me-ia o erro.

Semeando no Campo é a demonstração de que, quando o cidadão ou a cidadã busca entender e exigir seus direitos e o Estado os assegura, por meio de políticas públicas, alçamos todos um vôo seguro e sem escalas e aterrizamos no campo fértil da cidadania.

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



Rua do Rosário, 72 – Centro – Fone (37) 3522.2361 – Bom Despacho - MG
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal de Negócios.