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Bom Despacho (MG), 22 de setembro de 2017

Ser ou Estar um agente político em Bom Despacho?

Vereadores da atual legislatura (Foto: Rosemberg Rodrigues)
Publicado em 19/06/2017 20:35:34

DENISE COIMBRA - Na segunda-feira passada ocorreu a décima sexta reunião ordinária da Câmara de Vereadores de Bom Despacho. Por meio dela, pude atestar a minha ignorância no que diz respeito ao tratamento dado pelos vereadores aos anseios da população. 

Com a polêmica em torno do “salário” percebido por eles, aprendi que a remuneração paga aos vereadores é denominada subsídio. Não pude deixar de refletir sobre o que isso significa na prática, ou melhor, na Praça da Matriz onde o povo costuma ir para discutir política, futebol e outras amenidades. 

Lancei a questão: um vereador recebe um subsídio de mais de R$ 6.000,00. A carga horária de trabalho deles é regulamentada? A freqüência diária é obrigatória? Ninguém soube me responder. Quem orienta, fiscaliza e acompanha o trabalho deles? Quem intermedia os conflitos oriundos das divergências políticas, culturais, sociais ou interpessoais? E quais os reflexos dessa dinâmica inter-relacional para a cidade? 

Silêncio sepulcral. Cheguei a ouvir os passinhos das formigas que carregavam folhas cortadas no canteiro em frente. Ri, sozinha, do meu desatino. 

Em seguida, o pai de uma amiga alfinetou: “Num país onde o salário mínimo é fixado em R$ 937,00 para uma carga horária média de 44 horas semanais, é uma vergonha um vereador ganhar esse valor aí, se subsídio ou salário, pouco importa. É uma injustiça e um absurdo!” - Finalizou. Eu retruquei: Quem se importa? Dentre nós, quem assiste as reuniões pessoalmente? Via Internet? No dia 15 contabilizei 34 visualizações. Sabemos quais projetos estão em tramitação e há quanto tempo? Rememoro uma parte da reunião. 

A afirmação de uma vereadora: “Não sou vereadora, estou vereadora.” Ser ou Estar? Importa-nos o impacto político dessa colocação semântica? Qual é o resultado dessa afirmação no trabalho dela e para a população de Bom Despacho? 

Sigo meu aprendizado tropeçando nos verbos e nas formas de tratamento utilizadas: V.Sa, Vossa excelência. Por meio delas, vislumbra-se ou encobre-se o que se faz com os anseios do povo de Bom Despacho? Releva-se ou revela-se a trama política tecida na Casa do Cidadão e na cidade?

Durante o intervalo para a discussão de um parecer do procurador tento aprender: O que distingue um decreto de uma lei? Decreto-lei? O que é isso? E o anteprojeto que trata do subsídio dos vereadores? Tudo que é legal é mesmo justo? Queremos discutir isso? 

Indago perplexa diante da minha ignorância no exercício da cidadania e do baixo entendimento das nuances interpretativas das matérias discutidas pelas autoridades ali presentes. Sei que o critério para ser ou estar vereador, aproveitando a fala inquietante da vereadora, não se resume a critérios técnicos, mas sim “a qualidade de cidadãos”, esses mesmos que interferirão por agilidade, demora ou omissão na condução dos destinos da comunidade, haja visto a quantidade de projetos que permanecem sem obterem a devida atenção dos vereadores brasileiros, desde a primeira câmara no Brasil, em 1532. Talvez isso também explique o atraso em que mergulhamos nossa nação. Além dos “egos envaidecidos e cérebros emburrecidos” próprios ao mundo político, segundo o saudoso cronista Stanislaw Ponte Preta. 

Observei a preocupação em fiscalizar o Executivo e cobrar a transparência do mesmo. Entretanto, uma atmosfera hostil permeava aquela noite e a agenda de trabalho. Percepção oriunda do meu desconhecimento político e da pauta em questão? Persigo até o fim o meu claudicante aprendizado. Além do modus operandi da Casa do Cidadão, inquieta-me ali dentro as mesas dispostas frente a frente, a divisória que separa os cidadãos e os legisladores. Mais ainda, o desnível entre a mesa diretora e os demais vereadores. Oxalá, tais disposições não contribuam para a morosidade da construção da democracia e da cidadania tão incipientes em Bom Despacho. Bem como o Ser ou Estar agente político em Bom Despacho, seja exercido com autoridade e não com autoritarismo, prática tão nefasta quanto antiga no exercício político pelos quatro cantos do Brasil.

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



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