iBOM | Ou oferecemos um caminho ou teremos mais bandidos



140x140
Bom Despacho (MG), 19 de novembro de 2017

Ou oferecemos um caminho ou teremos mais bandidos

Publicado em 28/04/2017 08:03:12

DENISE COIMBRA – No dia 17 de abril, dez anos após uma tentativa não concretizada, o sonho de instalação de uma APAC em Bom Despacho transformou-se em realidade. Nas palavras do ex-juiz João Batista Simeão, um dos idealizadores, “foi dado o pontapé inicial.”

Os depoimentos do recuperando Guilherme, que cumpre pena privativa de liberdade na APAC de Lagoa da Prata e do Renildo, ex-recuperando e hoje funcionário da FBAC (Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados) foram bastante elucidativos. Em alguns momentos foram contundentes na defesa da dignidade e do respeito que o Estado e a sociedade devem ter por aqueles que cometeram qualquer tipo de delito.

Privá-los de sua liberdade é o que está previsto na lei, mas não dos demais direitos a que todos nós humanos temos. Devemos lutar para que a civilidade prevaleça sobre a selvageria ou a crueldade. Como podemos aceitar que o Estado responda com violência, tortura e desrespeito à dignidade humana?

Muitos brasileiros e brasileiras têm uma visão distorcida do que significa direitos humanos. É muito comum ouvirmos as pessoas dizerem: “Vocês, que defendem os direitos humanos, querem dar aos criminosos direitos e acesso a programas que a maioria de nós, pessoas honestas, não temos”. Minha resposta é simples. Temos que defender direitos humanos para todos, ou seja, a universalização de direitos e não a seletividade, porque somos iguais.

Acreditar que dar direitos aos presos retira direitos de outros é, no mínimo, ingenuidade.

Essa afirmação ofusca a nossa visão perante a ausência e a diminuição de políticas públicas para combater a pobreza e a desigualdade social e econômica, haja visto as reformas e medidas tomadas pelo governo atual que impactarão exatamente a vida daqueles que menos têm condições de arcar com os desmandos, corrupção e privilégios mantidos ao longo da história política, social e econômica do Brasil.

Esclareço que a maioria de nós e os estudiosos já sabemos não haver uma relação direta entre a pobreza e a violência, mas conhecendo as inúmeras histórias de homens e mulheres presas, vemos que neles estão presentes “uma realidade de discriminações e desigualdades, pobreza extrema, falta de dignidade nas relações interpessoais – com frequência marcada por abusos e violência intra-familiar-, a exploração sexual e econômica das pessoas, em especial de mulheres, via prostituição e/ou tráfico, culminando com a prisão.”

Devemos aprofundar a nossa análise sobre “a interferência da realidade econômica na liberdade do agir das pessoas.” Subestimar essa interferência tem tido um custo alto para todos. Em todos os sentidos.

Enquanto Guilherme relatava sua experiência em cinco presídios antes de ser transferido para a APAC, lembrei-me que no século XVIII a privação de liberdade surgiu como alternativa aos castigos corporais e à pena de morte. Entretanto, desde então, as prisões têm cumprido apenas o papel punitivo e, também nas palavras do recuperando, tornaram-se uma escola para o crime. Uma realidade repleta de revolta, maus-tratos entre presos e também por parte daqueles que representam o Estado. Nas prisões, o aliciamento de jovens pelas facções criminosas não produzirá nada benéfico para a sociedade.

Enquanto escutava Renildo falar sobre a responsabilidade da sociedade, quando um egresso do sistema prisional volta ao convívio social, lembrei-me das pessoas que convidei para participar da audiência pública e que não foram. Lembrei-me também de algumas pessoas que estão criticando a nossa iniciativa. Ao pousar meus olhos em Renildo e depois em Guilherme, imediatamente, recordei-me da frase de uma amiga ao recusar o convite: “essa é uma história que não quero ouvir e muito menos, participar.”.

Não é se omitindo ante o crescimento da criminalidade provocado pelas nossas prisões que a sociedade vai resolver o problema. Ou oferecemos oportunidade de trabalho e um caminho de vida para os presos se recuperarem, ou teremos cada vez mais bandidos saindo das prisões piores do que entraram. Aí quem perde somos nós, a sociedade.

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



Rua do Rosário, 72 – Centro – Fone (37) 3522.2361 – Bom Despacho - MG
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal de Negócios.