iBOM | Do outro lado da ponte há um novo horizonte



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Bom Despacho (MG), 22 de setembro de 2017

Do outro lado da ponte há um novo horizonte

Imagem ilustrativa
Publicado em 17/04/2017 10:07:19

DENISE COIMBRA - Terça-feira, dia 11/4, ao voltar de ônibus de Belo Horizonte para Bom Despacho, enquanto eu lia sobre o Passo a Passo para a instalação da APAC, observei que o senhor ao meu lado olhava interessado para o livro que eu estava lendo. Fechei-o e perguntei:

- O senhor conhece?

- É um tipo de prisão diferente, né?  

- Sim, nela são desenvolvidas ações e também parcerias para dar oportunidades de trabalho ao recuperando que cumpre pena. O objetivo é que esse trabalho o prepare para quando sair da prisão.

- Fiquei pensando naquele rapaz que tentou assaltar o ônibus na ponte rio Niterói, você viu? 

- Disse-lhe que não.

O homem então contou-me que o jovem assaltante estava com uma arma de plástico e que dizia a todo momento que sua esposa e dois filhos não tinham nada para comer e que ele estava desesperado porque saira de condicional e não tinha conseguido nenhum trabalho. Após o insucesso do assalto, ele repetia que só se renderia na presença da esposa.

- E o senhor, o que achou dessa situação? - Perguntei.

- Sinceramente, até um tempo atrás, eu achava que bandido bom era bandido morto. Até pena de morte eu desejei para assaltantes e assassinos. Mas depois que o filho da minha vizinha, minha comadre, um garoto de dezenove anos, envolveu-se num assalto à mão armada e foi preso, eu passei a olhar esse assunto de outro jeito.

- Eu o visitei várias vezes no presídio. Cada vez que eu saía de lá ficava impressionado com o fato de que no presídio não havia nada para ele fazer. Nenhum trabalho, nenhum estudo. Nada. Ele entrou para a prisão com 19 anos e sem completar o primeiro grau. E vai sair mais velho e com a mesma instrução. Sem contar a quantidade de coisa ruim que ele vai aprender lá dentro porque se ele não tem um livro para ler, um trabalho para realizar ou uma instrução para completar o que sobra para fazer? Já diz o ditado que cabeça vazia é oficina do diabo.

Antes que eu o respondesse, uma jovem que estava do outro lado do ônibus disse:

- Ontem eu soube que a Prefeitura de Bom Despacho recebeu detentos que têm bom comportamento para trabalharem na capina e na limpeza da cidade.

Rapidamente eu perguntei a ela:

- O que você achou dessa decisão?

- Achei ótima! – Como alguém que fica preso durante 10, 15, 20 anos sem fazer nada dentro de uma cela abarrotada de gente vai arranjar um emprego ao sair da prisão? Como conseguirá trabalhar em alguma coisa que ele queira se a gente, quando fica sabendo que a pessoa esteve presa, se recusa a ajudar?

- E porque a gente faz isso? – Provoquei.

- Acho que é porque a gente é vingativa. Não acreditamos que as pessoas possam ter uma segunda chance e assim o destino delas está nas nossas mãos, e não o contrário. Porque muitos quando precisam, nós não os apoiamos por preconceito e por egoísmo mesmo. A maioria de nós, que nunca foi preso, não tem a menor ideia do que seja isso. Então, isso não passa a ser um problema para nós.

- E o senhor? – Voltei-me para o homem sentado ao meu lado.

- Eu? – Penso que se o moço do assalto ao ônibus da ponte Rio-Niterói soubesse que, além da esposa e dos dois filhos, tinha um emprego esperando por ele, do outro lado da ponte, dificilmente ele teria entrado naquele ônibus para assaltar. Também acho que se as pessoas parassem para pensar veriam que melhorar a vida do preso dentro e fora da prisão não é melhor para ele, é melhor para todos nós! Afinal, se aprender a trabalhar e tiver uma profissão, a maioria dos presos não voltará ao crime depois de sair da cadeia.

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



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