iBOM | A caçada do Alcides na sexta feira da Paixão em BD



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Bom Despacho (MG), 19 de novembro de 2017

A caçada do Alcides na sexta feira da Paixão em BD

Imagem ilustrativa
Publicado em 16/04/2017 19:45:33

TADEU ARAÚJO - Uma coisa que não se podia fazer de jeito nenhum na semana santa era caçar. O Alcides disse que era rapaz. Estava na casa da mãe dele no Vilaça, onde Samaria do Chiquinho cobrira com pano roxo todos os retratos e quadros de santos na parede. Na sexta-feira Alcides vai manhosando na modorra daquele dia que demorava a acabar. Tava tudo quieto e devagar demais. Então pedindo perdão aos céus, fez um “em nome do pai”, um sinal da cruz, rezou três ave-marias e um glória ao pai e saiu assim mesmo pra caçar. A cartucheira no ombro, o perdigueiro de lado e a capanga de pano pra trazer as caças abatidas. Beirou córrego, subiu e desceu espigão, ganhou a palhada, varou o cerrado. E nada, a passarinhada e os bichos, recolhidos em seus galhos e tocas, pareciam emprestar solidariedade à dor de Jesus.

Depois de horas mais cansativas e monótonas que a quietude de sua casa, ele resolveu voltar. No caminho de volta, topou com uma macaca velha, dormitando sob a copa de um arvoredo. Puxou então sua polveira e embicou na bicha. O que aconteceu ali quase lhe provocou um enfarto. A macaca ergueu os braços e mostrando dois filhotinhos a seu lado, implorou: -Não me mate moço, tem dó, eu sou mãe de família!

Mais assustado do que condoído, ele ajuntou seus trapos, chamou o cão e se mandou. Na porta de casa, tirou o chapéu, capanga e cartucheira e pô-los no chão. Aí exclamou desolado:

- Nunca vi uma caça estapafúrdia feito essa!

Então, Pagode, o seu fiel cão e companheiro emendou:

- Nem eu, sô Alcides!

Por isso ele dizia sempre:

- Caçar na sexta-feira santa, nunca mais e aconselha que ninguém deve fazê-lo, se não quiser topar com assombração.

Tadeu Araújo é professor e escritor.



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