iBOM | A Verônica: mítica personagem da Via Crucis na cidade



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Bom Despacho (MG), 21 de setembro de 2017

A Verônica: mítica personagem da Via Crucis na cidade

Nair Anacleto
Publicado em 14/04/2017 22:26:00

TADEU ARAÚJO - A Verônica, segundo se acredita, teria sido uma das mulheres que acompanhou Jesus em seu suplício até o calvário. Ao ver sua face totalmente coberta pelo sangue que corria da coroa de espinhos incrustada em sua cabeça, Verônica tomou de um pano branco de linho e enxugou com ele o rosto de Cristo, que caminhava carregando uma pesada cruz. Então a imagem daquela face sagrada ferida ficou para sempre estampada naquele pano.

Na Semana Santa, a figura dela é lembrada pelos católicos e representada por uma mulher, toda vestida de preto, nas procissões. De espaço em espaço, ela surge ao lado da procissão do Senhor Morto. Vai desfraldando o pano com a face de Jesus manchada de sangue e entoando uma canção profunda e triste que diz:

“Ó vós todos que passais

Pelos caminhos, atendei e vede

Se há dor igual

A minha dor.”

A voz da Verônica em Bom Despacho, através dos tempos, foi interpretada pelas nossas melhores cantoras, escolhidas a dedo para tão nobre missão. Que eu me lembro foram essas as selecionadas que por algum tempo foram as nossas Verônicas: Leda Hamdan, Viena do Paraíso, Lindaura, Nair Anacleto, Valquíria e atualmente Elisângela do Coral da Igreja Matiz de Nª Srª do Bom Despacho.

 

Silêncio, Cristo morreu!

Não faz muito tempo, os católicos reverenciavam com dor e respeito a morte de Cristo na cruz. Sexta feira da Semana Santa era o dia mais sagrado do calendário religioso. Em consideração à morte de nosso Salvador imperava o silêncio. Nada, nem um gesto poderiam quebrar o grande silêncio que tomava conta das ruas e praças, das casas e dos caminhos. Até a natureza parecia silenciar-se ante o sofrimento da morte de cruz de nosso redentor. Ninguém deveria cantar ou ligar o rádio. Falava-se baixo em todos os cantos, os meninos não podiam correr, gritar ou brincar: “Quieto, crianças, Jesus morreu!”

Nesse dia sagrado não se trabalhava com nada, nem as casas eram varridas, na cidade, nos povoados e na zona rural. Um sentimento coletivo de comoção tomava conta das pessoas.

Dr. Celso Ribeiro, meu colega da Academia Bom-Despachense de Letras, na reunião mensal de abril, apresentou para seus colegas acadêmicos um poema, de extrema profundidade e talento, cuja leitura nos faz sentir até o fundo da alma esse silêncio das antigas Sextas Feiras da Paixão. Vejamos:

Tadeu Araújo é professor e escritor

 

Silêncio

(Celso Ribeiro)

Menino, silêncio! Ecoa a voz áspera do pai assistindo ao jornal na TV, calando o filho teso, brincadeiras ao meio paralisar.

Silêncio! Em boca calada não entra mosquito!

Silêncio, menino! A voz da professora terna na sala de aulas a ensinar.

Psiu, silêncio! Adverte o indicador na boca cálida da enfermeira na ala hospitalar.

Silêncio fúnebre no lento cortejo rua abaixo rumo ao cemitério.

Silêncio transcendente na Catedral.

Silêncio sepulcro solene da procissão Senhor Morto Sexta-Feira a quaresmar.

Silêncio tenso entre pai e filho dos não ditos vividos a remoer, a cismar.

Silêncio olhares dos quase amantes ensaiando promessas seduções a desejar.

Silêncio manequins vitrines a exibir seios da moda, coxas, plastificados umbigos a se mostrar.

Silêncio dos exaustos amantes extenuados, gozosos gemidos atenuados, a repousar.

Silêncio nos Tribunais! Silêncio! Ordem! Silêncio na Corte!

Silêncio dos muitos à fome de milhares.

Silêncio dos justos à perfídia dos culpados.

Silêncio raivoso do cão latido. Cala Til! Sardento! Saia!

Silêncio expulso dos campos de futebol, das arquibancadas, das discotecas, das conversas de barzinhos, das academias saradas, das festas de confraternização. Ufa!

Silêncio profundo nas distâncias cósmicas a mirar o fundo do mundo.

Silêncio da coruja a vigiar a madrugada.

Silêncio da noite a escutar passos insones dos velhos a madrugar.

Silêncio medroso da testemunha de bárbaro crime a assombrar.

Silêncio de namoro prestes a terminar.

Silêncio dos surdos a arregalar os olhos para melhor entender a pressa do mundo.

Silêncio dançante entre notas musicais, à espera do há de vir.

Silêncio no pênalti a cobrar.

Silêncio eterno de Deus a nos contemplar.

Silêncio mistério na face do outro: Medo? Raiva a ruminar?

Silêncio da morte. Nunca mais palavrear, sussurrar, amar.

Silêncio desamparo, filho morto no colo, entalhado na escultura a nos falar, perdido olhar.

Silêncio de ouvido a tampar, medo trovão, relâmpago a anunciar, fogo ferido, fenda no ar.

Silêncio condenatório de Padre em confessionário.

Silêncio de filho a engolir respeito medo do rude ríspido pai.

Silêncio da noite a ouvir inquietos passos meninos de Papai Noel a esperar.

Silêncio da flor a desabrochar.

Silêncio das asinhas beija-flor a tremular.

Silêncio de pena a penar no ar, caindo, caindo, da gravidade não poder escapar.

Silêncio aconchegante da mãe a amamentar.

Silêncio nascente de toda manhã a recomeçar.

Silêncio falante da mente a criar.

Silenciar.

Reaprender a olhar, auscultar, novas linguagens criar.

No silêncio do outro saber esperar.

Silenciar.

Nos ruídos do mundo, aprender a serenar.



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