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Bom Despacho (MG), 19 de novembro de 2017

Podemos imaginar Bom Despacho ficar sem o SESC?

Portaria do SESC Bom Despacho (Foto: Netun Lima)
Publicado em 15/03/2017 18:13:16

TADEU ARAÚJO - Estão tramando fechar o SESC em Bom Despacho. Antes de abordar este assunto, que pode traumatizar a comunidade local, vou apontar, através dos tempos, perdas históricas que sofremos e que atrasaram em décadas o nosso progresso, conclamando a todos para impedirmos essa trama infeliz. No final, falarei do SESC

Bom Despacho até 1922

A pequena cidade de Bom Despacho, até os inícios de 1920, não tinha indústria, nem um comércio, nem cargos públicos relevantes que dessem emprego à população. A maioria dos proprietários e trabalhadores eram rurais e ganhavam pouco ou quase nenhum salário. O dinheiro circulava minimamente no município. A nossa economia era paupérrima. O progresso de Bom Despacho engatinhava.

O impacto da E.F. Paracatu

Em 1922, a Estrada de Ferro Paracatu, com suas oficinas, chegou a Bom Despacho. Veio mais de uma centena de famílias de funcionários graduados e ferroviários. .

A partir desse auspicioso acontecimento, os ares do progresso sopraram fortes na pequena e isolada cidade sertaneja desses rincões de Minas Gerais. Saímos do isolamento secular e entramos em contato com o mundo. Gente chegava e gente saía. Novos moradores. O comércio cresceu. A luz elétrica foi inaugurada em 1924. Uma nova e imponente Igreja Matriz, um conjunto soberbo de um edifício para a Santa Casa, um prédio moderno para o Grupo Escolar (atual Coronel Praxedes) tiveram suas edificações iniciadas nos anos de 1927, 1928 e 1929.

Bom Despacho pensava grande e se preparava pra sê-lo. A Paracatu, por seus diretores, entrosou-se com a comunidade e participava de todas essas obras. Na construção da Matriz colocou um ramal com um vagão e trilhos até os buracões da atual Rua Lambari para jogar a terra retirada do outeiro a fim de dar lugar à nova igreja. Na Santa Casa, sob a liderança de Dr. Miguel Gontijo, dizem que a Paracatu chegou a pôr mais de 100 operários para ajudar.

Conduziam esse progresso o fervor e o amor do povo pela terra, a ousadia de grandes líderes como o prefeito Faustino Teixeira, o maior de nossa história, o vigário Nicolau, o Padre Augusto, o então jornalista Dr. Nicolau Leite, o construtor José Etelvino e famílias como os Assunção, Marques Gontijo, Queiroz, Araújo, Teixeira, Leite, Fidelis, Cardoso, Costa, Rodrigues, Resende e outras. Sempre com a participação e ajuda de cada filho do lugar, por mais humilde que fosse.

Tristes derrocadas de nossa história

Mas em 1931, cerca de 90% do pessoal da Paracatu com suas oficinas geradoras de empregos e de divisas foram levados para Divinópolis e Alfenas, ou Araxá, se me lembra bem. Um “crash” econômico como o da Bolsa de Nova Iorque em 1929 abateu-se sobre nossa terra e nossa gente.

Mas resistimos bravamente e fomo-nos recompondo como pudemos. Entretanto, outros tombos vieram e atrasaram nosso desenvolvimento por décadas: basta recordarmos, recentemente, a CAF que tinha tudo para montar seus escritórios aqui, eles foram levados para Martinho Campos. Depois Bom Despacho, a terra do leite, perdeu para Pará de Minas, a terra do frango, uma indústria de laticínios da Itambé.

E o Sétimo Batalhão que aqui foi criado, graças à ação do mais ilustre dos bom-despachenses, Olegário Dias Maciel, governador de Minas, em 1931, parecia intocável. Todavia aos poucos ele vai sendo desmontado, pois já nos tiraram os cursos para formação de soldados e sargentos, para os quais o Sétimo tem as melhores estruturas, um importantíssimo comando Regional da PMMG, como outras companhias que o seguiram. Outras perdas da Cidade Sorriso teriam lugar nesta página, caso não fora para tão grandes prejuízos, tão exíguo o espaço e tão curta minha memória.

Bom Despacho de Hoje

Fechar o SESC, orgulho de Bom Despacho e de sua gente...? Faz isso não, sô. Ele foi fruto do amor acendrado do Dr. Robinson, um filho amado desta cidade. Às vezes fico pensando que nisso aí há muito ciúme e má vontade. Ciúme, até quem sabe, de gente que nem em sonhos possa fazer por sua terra o que o Dr. Robinson fez pela dele.

Fecha o SESC não, sô! Pense na tristeza que vamos sentir. Antes de fazê-lo, pense que mais de cem pessoas vão perder o emprego. Mais de cem famílias vão ficar sem praticar esporte, sem lazer, sem poder ver um filme.

E os meninos que estão lá, recebendo lições de cidadania e de escolaridade, o que se vai fazer deles? E os corais. A biblioteca. As apresentações e gerações de cultura. Como é que vão ficar... E os chalés e as belezas de todo o parque tão visitadas por tanta gente que apreciam e amam o belo... Pra onde nós vamos mandá-los...

Ah! Num faz isso, não! Deixa de birra pra com essa cidade, chamada de Sorriso, que nunca lhe quis mal. Cidade de Nossa Senhora do Bom Despacho, e não terra da macumba como pensam alguns desavisados. Não seja mal, sorria pra nós também. O SESC é o orgulho e os dodóis da Bom Despacho de hoje. Ele é fruto do amor de um homem que não soube ser pequeno. Ele seguiu a inspiração dos nossos antepassados. Ele deixou uma obra grandiosa para todo o sempre em Bom Despacho, com plenas condições de funcionamento.

Há pessoas que conhecem uma cadeia brasileira por dentro e seu funcionamento, porque já passaram por lá. E viram a atrocidade com que são tratados os presos brasileiros, atrocidade, aliás, conhecida e condenada no mundo inteiro.

Talvez o coração de alguma dessas pessoas se condoeu e ela, num gesto magnânimo e humanitário deu a sugestão de se oferecer gentilmente:

- Tomem o SESC, transformem-no em uma prisão modelo.

Mas, meu caro filantropo, “muito obrigado”, não, foi o que disse alto e bom som a brava resistência da altiva gente de Bom Despacho, na reunião de 6ª feira passada.

Tadeu Araújo é professor e escritor



Rua do Rosário, 72 – Centro – Fone (37) 3522.2361 – Bom Despacho - MG
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