iBOM | Biblioteca a Céu Aberto: cultivando a leitura na cidade



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Bom Despacho (MG), 23 de novembro de 2017

Biblioteca a Céu Aberto: cultivando a leitura na cidade

Imagem ilustrativa
Publicado em 23/02/2017 09:48:25

DENISE COIMBRA - O projeto Biblioteca a Céu Aberto é uma iniciativa louvável. Trata-se de uma realização do Coletivo C4 – Campo de Consciência. O coletivo é composto por vários cidadãos de Bom Despacho que decidiram fomentar o hábito de leitura nos moradores da cidade por meio de doação de livros, revistas e quadrinhos.

A primeira ação do projeto foi denominada Estante Itinerante. Ela foi montada dia 5 de fevereiro na Praça do Rotariano, de 9 às 12 horas. E foi lindo demais!

Havia leitor buscando romance, aventura, religião, desenho, culinária. Alguns leram um pouquinho, antes de escolher, outros escolheram pelo título, capa, tamanho.

Uns levaram revistas, outros quadrinhos, uma salada bem temperada e diversa. É incrível como a literatura, além do saber, traz sabor e a gente fica com água na boca e quer comer, devorar o livro.

Lá, conheci uma leitora apaixonada, a Beatriz, que mora ao lado da Praça. Ela lê muito e quando lê dá vontade de ser escritora, disse-me ela, com um entusiasmo contagiante.

Eu retruquei: escreva! Escreva! E acho que ela já escreve lindamente, só não publicou ainda!

Conversei com duas crianças e perguntei o motivo pelo qual eles escolheram os livros em suas mãos e um deles me disse:

- Porque eu adoro ler e também porque conheço o autor de dois desses livros. E sabem que o autor é de Bom Despacho?

À medida que o tempo passava, as pessoas iam e vinham pela praça. Algumas atentas ao que estava acontecendo, outras nem tanto. Algumas observavam, na porta de suas casas, outras nos bancos da praça. Uns passavam bem perto, davam uma espiada rápida e seguiam em frente outros nem paravam.

Teve gente que observou muito e só chegou perto quando estávamos desmontando a estante e por um minuto pudemos conversar sobre o que ela estava querendo ou procurando.

Enquanto guardávamos os livros e desmontávamos a estante, eu me lembrei de que um grão-vizir da Pérsia, no século X, levava sua biblioteca consigo. (*) "Quatrocentos camelos carregavam cento e dezessete mil livros, numa caravana que se estendia por dois quilômetros. Era um refúgio de livros seguro e à prova de guerras e incêndios: a biblioteca andante."

Era um gesto de prevenção contra o fogo que já havia queimado a biblioteca de Alexandria, a mais famosa da Antiguidade, incendiada pelas legiões romanas.

Era também um gesto em vão de prevenção contra o fogo que os norte-americanos colocariam em milhares e milhares de livros da Biblioteca de Bagdá, numa guerra inventada por George W. Bush contra (*) "o inimigo que ele mesmo inventou."

Ao carregar os livros até o porta-malas do carro, relembrei o impacto dessa história em mim e voltei para casa consciente de que a Estante Itinerante, herdeira dessa memória andante, quer chegar até o coração do leitor e da leitora, num gesto de prevenção contra a ignorância e a alienação.

(*) Adaptação livre e cópia do texto A Memória Andante, do livro Os Filhos dos Dias de Eduardo do Galeano)

Abaixo o texto que escrevi inspirada pela iniciativa do coletivo.

A Estante Itinerante

A estante itinerante vive dentro de mim desde a minha infância.

Ela veio até mim por meio da história da minha mãe que lia tudo o que seus olhos encontravam, mesmo que as mãos não alcançassem.

Enquanto meu pai recitava poemas para mim ela também moldava o meu desejo de leitura e sonho de percorrer o mundo dentro e fora de mim.

Um dia, meu irmão foi estudar no exterior e deixou seus livros comigo porque sabia que eu os amava e a ele também. Durante dois anos, em cada livro, em cada prateleira acomodei a lembrança dele, ao alcance das minhas mãos e no meu coração.

Quando eu ia à biblioteca pública da minha cidade, ela sonhava transportar-se para aquele universo mágico e instigante. Queria misturar-se, aconchegar-se dentre outras iguais, ainda que por instantes.

Quando entrei para a universidade a estante itinerante alcançou novos ares, especialidades, diversidade e expandiu para muito além do que eu imaginara.

Quando entrei para o mundo do trabalho, ela e eu conhecemos um universo desconcertante. Apaixonamos pela realidade prática que ampliou a minha leitura de mundo.

Há alguns anos, retornei a Bom Despacho e comecei a passear pelos bairros e praças explorando os quatro cantos da cidade.

No dia 5 de fevereiro de 2017, ao passear pelo Campo ou bairro São Vicente, a estante itinerante despediu-se de mim. Quis ficar na Praça do Rotariano, Cruzeiro, JK e outros locais.

Qual o motivo? Ela conheceu crianças, jovens, adultos de todas as idades apaixonados por livros. E quer fortalecer o vínculo, deixar-se conhecer e doar livros.

E eu?

Bem, num misto de nostalgia e alegria decidi acompanhá-la. Juntamente com meus amigos Eder, Wedster, Elton, Priscilla, Geraldo e Alcione experimentamos uma nova leitura da vida, da amizade e das inquietações que movem o nosso modo de viver.

Denise Coimbra é psicóloga e professora



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