iBOM | Jazz Band: um grupo que marcou época na BD dos anos 30 e 40



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Bom Despacho (MG), 19 de novembro de 2017

Jazz Band: um grupo que marcou época na BD dos anos 30 e 40

Amador (esq), Elpídio, João, Altino, Vavá, Curunga, Samuel (assentado), Rosário, Ferreira, Geraldo , José Floriano e Juvelino (dir)
Publicado em 17/02/2017 09:05:48

TADEU ARAÚJO - A Jazz Band do Sétimo Batalhão de Cavalaria de Bom Despacho foi criada em 1937. Tempo na Ditadura Vargas. No estado e no município não havia governador nem prefeito eleitos. Esses foram substituídos por interventores nomeados, que governaram ditatorialmente por 15 anos. Não prestavam contas a ninguém de sua administração nem do dinheiro arrecadado pelos cofres públicos, pois não existiam vereadores nem deputados para questionarem suas contas. Hoje, nesses tempos da lava-jato, reclama-se da corrupção no Brasil. Naqueles tempos era muito pior e ninguém podia falar nada. Eram os tempos da ditadura. Os políticos corruptos de hoje são anjinhos, cafés-pequenos ante seus colegas de1930 a 1945. Por isso sempre defendo: as coisas no Brasil estão é melhorando.

Seleção de craques musicais

Quando a Jazz Band foi criada, o hoje Sétimo Batalhão de Infantaria era denominado Sétimo Batalhão de Cavalaria. A primeira medida depois de criá-la foi equipá-la com instrumentos de dar água na boca na atual Banda do Sétimo. Esta, muitas vezes, tem passado por sérios apuros com a carência da quantidade de instrumentos, de sua qualidade até do número de seus profissionais.

A Jazz Band não tinha a mesma finalidade da outra que já existia e existe até hoje. Ela era um conjunto de músicos refinados, escolhidos a dedo. Apresentava-se em ocasiões públicas ou privadas e em bailes de Bom Despacho, da região e de todo o estado de Minas Gerais. Seu sucesso era retumbante e a garantia do requinte dos eventos onde tocava.

Os músicos

Seus instrumentos e “crooners” (cantores) tinham gabarito para se apresentarem, sem favor nenhum, em qualquer grupo musical de Jazz – ritmo que era o chique da época – em qualquer lugar do Brasil e até dos Estados Unidos, berço do Jazz.

Em 1937 esta rapaziada da banda já eram artistas renomados. Eu nasci em 1943 e vim a conhecer pessoalmente alguns deles. O sargento Altino era o marido da Tinuca e pai de meu amigo Dr. Cícero Ivan. O professor Mascarenhas, uma de suas feras, veio a ser meu professor de Canto e Música no Colégio Miguel Gontijo. O sargento Samuel é o pai do Zé Afonso, ex- maestro da Banda do Sétimo. Pai também de meus amigos coronel Benjamim e da professora Alzira do Américo. Samuel, nos anos 50, foi meu vizinho na Praça São José e nós garotos ainda admirávamos os seus talentos musicais. Ele nos encantava, quando pegava uma simples folha de árvore e executava nela belas canções, como se estivesse tocando uma clarineta. O Floriano chegou a morar também na Praça São José, aposentou-se como maestro da Banda e era muito amigo de meus pais.

Sobrevivente de 37

Juvelino Jerônimo de Oliveira é o último sobrevivente da Jazz Band do Sétimo de 1937. Ele completará em setembro deste ano, literalmente, 99 primaveras de vida. Pois o destino prenunciando que ele seria um grande artista, fê-lo nascer no dia 23 de setembro, data do início da artística estação da Primavera. Juvelino era casado com dona Iolanda, irmã da dona Nenê do Zé do Frederico. Dona Iolanda que antes fora namorada do nosso ainda jovem prefeito Antônio Leite, com quem quase se casou.

Juvelino, esta sumidade musical formada em Bom Despacho, reside hoje em Belo Horizonte e visita sempre nossa cidade.

Era perito executor de variados instrumentos. Profundo conhecedor da teoria musical. Concursou-se, foi aprovado e nomeado diretor do Conservatório de Música da Universidade Federal de Minas, onde se aposentou. Antônio Salgado, outro musicista bom-despachense admirável, me disse que Juvelino foi o maior músico que conheceu em toda a sua vida.

O uniforme

O comando do Sétimo Batalhão incumbiu o alfaiate bom-despachense Antoniquinho de produzir o uniforme da Jazz Band. E ele caprichou. Matou a pau como se diz. Seu modelo nada ficou a dever a modelitos famosos dos ateliês de Rio ou de São Paulo. Meus leitores podem conferir isto pela foto que publicamos na edição de hoje: Sapatos pretos. Calças claras. Jaquetas escuras. Gravatas borboleta. Lencinhos brancos na algibeira. Chapeuzinho de palha com cintas negras.

Como se diz “ épouco ou quer mais”. Além da excelente música que tocavam, as mulheres suspiravam também ante aquela seleção de jovens e belos rapazes, que faziam imenso sucesso, onde quer que fossem tocar, atraindo sempre um enorme e seleto público.

80 décadas de uma foto histórica

Essa histórica foto de 80 anos está bem guardada e preservada com carinho por uma pessoa que vocês bem conhecem. Falarei dela no final. Já a identificação dos personagens, agradecemos ao sargento José Afonso, filho do sargento Samuel, presente na foto, e à sua privilegiada memória. José Afonso reconheceu um por um os colegas de seu pai, exceto um. Então pedi ao Eudes que levasse o retrato a seu pai Juvelino em BH e ele indicou com precisão o nome do até então ilustre desconhecido na foto. Para surpresa nossa era de uma pessoa muito querida juntamente com toda a sua família em Bom Despacho: o velho e simpático Elpídio. Ele era barbeiro, estabelecido na Rua do Rosário (Dr. Miguel), abaixo da residência do João Araújo.

Quanto ao personagem a quem devemos o zelo por essa histórica foto, ele é o Zé Toniquinho, filho do Antoniquinho, mais que um alfaiate, um artista da moda em Bom Despacho dos anos 30. Uma prova de carinho para com seu pai adotivo.

Tadeu Araújo é professor e escritor



Rua do Rosário, 72 – Centro – Fone (37) 3522.2361 – Bom Despacho - MG
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