iBOM | Um milagre de Natal: conto de Natal bom-despachense



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Bom Despacho (MG), 21 de setembro de 2017

Um milagre de Natal: conto de Natal bom-despachense

Publicado em 25/12/2016 01:09:18

TADEU ARAÚJO - Dedico esta página de hoje à minha neta Bruninha, lá do outro lado do Atlântico, em Lisboa, Portugal, que vive em longes terras o seu segundo Papai Noel.

“- Bendito seja pra sempre,
O Natar abençoado
De Jesus, o Sarvadô!”
(Ary de Lima –poeta regionalista)

Meu nome é Benedito Olívio Machado. Nasci e sempre vivi em Bom Despacho. Já fiz 78 anos, entrada pra 79. Há muito tempo, quando vai chegando o Natal, eu tenho o hábito de fazer uma leitura. È mesmo uma obrigação. Talvez uma devoção. Essa leitura me emociona sempre. Envolve o testemunho da fé de uma menina de 9 anos e a fé de seu pai. Um milagre de Natal. Trata-se da narrativa da cura de minha falecida mãe: Maria Clara de Jesus... E da determinação e do amor de meu avô: Salustiano Cunha Machado. Um acontecimento que data de 1909. Há 107 anos, portanto. Ela está estampada num velho caderno. Escrita a tinta com caneta de pau e pena de aço. Ditada por meu avô, que era analfabeto. A pedido de vovô, escreveu-a um velho mestre- escola daquele tempo, Tertuliano Orozimbo Naves – como consta a assinatura no final do caso.

Uma filhinha doente

“Foi assim, eu bem me lembro, qui começô minha história: Numa tarde de dezembro, quando cheguei do roçado, a minha fia, duente, desenganada, me chamô: - Nesta noite, em qui nasce pro mundo intero o Deus Menino Jesus, vai no seu artá do povoado e conta pra Ele qui sô criancinha, mais qui na cama duente só levo a vida a sofrê! Pede a Jesuis, papaizinho, qui venha, com seu podê, aliviá minha dô, neste rancho de sapê! Vancê premete, paizinho!

Promessa de uma capelinha

 Nós morava longe do arraiá do Bom Despacho, mas na madrugada da véspera do natal, montei meu alazão. Antes passei no quartinho dela pra mode lhe pôr a benção.. Acordei a coitadinha e disse de coração: “Minha fia, eu vô agora pra levá pra Jesuis Cristo o seu pedido inocente. Porém, bamo fazê uma premessa, pra nóis dois juntinho cumpri. Si Jesuis com seu podê curá o seu padecê, cá na frente do ranchinho, nóis dois havemo de fazê sua capela e todo dia com amô vancê há de perfumá a sua divina image , catando todas as frô que a mão de Deus for abrindo pelos campos e pelas varge. Vancê premete, filhinha?

A menina arrespondeu : Eu premeto sim pois sei que no Natar, Jesuis Cristo, Deus Menino, vem aqui pra me curá!

Em busca da salvação

Logo a seguir, saindo do Boqueirão, onde nós morava, galopei sertão afora, corri campo, bati terra, atravessei descampado, subi os tope de serra, cumprindo uma premessa, na esperança de sarvá uma criança. Menina santa e bonita, singela como uma frô, qui a graça de Deus no mundo, fez fia do meu amô. A mãe dela era uma cabocla bonita que Ele pro céu cedo levô. Minha menina, como minha mulher, tinha o oiá da cô do céu, dum céu sem mancha, azulado, que a gente venera e adora, parecia dois pedaço do manto purificado qui veste Nossa Senhora.

Aos pés do Menino-Deus

Passava das 11 horas, quando cheguei no arraiá. Esperei até o anoitecer. Em redó da igrejinha de Nossa Senhora do Bom Despacho, se juntava um povaréu. Da torre em festa, cantando, o sino já badalava. Era quase meia-noite. O vigário Nicolau chegou pra missa do galo.

Sem perda dum só momento, fazendo Sinar da Cruiz , eu rumei certo e confiante, pra capela de Jesuis. Cum respeito, penetrei no seu artá infeitado, bonito como não sei, com a mais santa devoção, dobrei as perna e rezei: “A minha fia, Senhô, anjinho de nove ano, já cheia dos desengano, no seu tempo de criança, feiz de Vós a sarvação, feiz de Vós uma esperança. Nessa hora, lá no mato, a coitadinha inocente, de certo por Vóis espera, esquecida numa cama, no canto duma tapera. Si fô de Vossa vontade, a morte de minha fia, ela é Vossa, meu Senhô! Mais tombém, se for servido, ela no mundo vivê, vai agora, meu Jesuis,com a graça de seu amô, aliviá seu sofrê.

Rezei com tanto fervô, qui meu oiá teve uma visão: Eu enxerguei meu anjinho, num quarto cheio de luiz, cantando alegre e sorrindo, dando a mão e se divertino cum Deus, Menino Jesus!

De frente ali do artá, eu lhi juro de tê visto, a minha fia assentada, no colo de Jesuis Cristo. Até pude ouvir seus gritinho de satisfação: “Meu Jesuis, meu redentô, eu já tô sarva, meu Deus! Agora posso brincá, corrê, sem percisá de chorá! Não sinto nenhuma dô! Bendito seja teu nome. Bendito seja o Natá de Jesuis, meu Sarvadô!”

E póde crê, sem duvidá, qui desse dia pra cá, a minha fé se omentô. E a da minha fia também, qui cumprindo sua premessa, sai pelas varge orvaiada, no mais puro dos amô. E, vortando satisfeita, deposita na capela, toda a braçada de frô, qui pelo campo a cantá, vai todo dia buscá pra Jesuis Nosso Sinhô.

(Adaptado do poema Premessa de Natar, do poeta regionalista Ary de Lima)

Mensagem de Natal

Para todos amigos, para todos os leitores e anunciantes do Jornal de Negócios, para os colunistas e editores, faço votos de que nesta Noite de Luz, em que nasce pro mundo inteiro o Menino Jesus, nos seja dado a todos apearmos do alto do nosso orgulho e das nossas vaidades para fazermos nossa oração de humildade. Rezemos com nossas famílias. E a Deus santo e divino, e a Jesus Cristo Menino, vamos abrir nosso coração.

Feliz Natal Para todos. 

Tadeu Araújo é professor e escritor



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