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Bom Despacho (MG), 21 de setembro de 2017

Estórias do Padre Pedro Lacerda e do menino Pinta

Major Sabino (esq), Padre Pedro e Heberton Sabino, o Pinta
Publicado em 10/12/2016 12:23:36

O belo texto de altíssimo valor literário em minha coluna desta semana foi redigido pelo Professor Heberton Sabino – conhecido como Pinta. Peço-lhe permissão para dedicar essa crônica a meu filho Tadeu – formado em Odontologia e também em Medicina pela UFMG – pois, o Pinta, o Tadeu curte-o muito desde sua adolescência, quando foi aluno dele em Belo Horizonte, como excelente mestre e bom camarada.

Biografia - Através do professor Ronan, recebi ligeiros e interessantes traços biográficos do Pinta e contei também com o incentivo e a colaboração de sua mãe, Martinha, que como toda boa mãe é coruja do filho e se orgulha dele pra valer.

Esses traços biográficos admiráveis foram enviados ao Ronan e depois por meio dele a mim, nos seguintes termos:

Prof. Ronan,
Encaminho o texto sobre o padre Pedro, oportuno pelo aniversário de 95 anos dele. Por tratar dele e de meu pai, envio as fotos dos dois.
O senhor pediu algumas informações minhas: Sou graduado em História pela UFMG e especialista em História e Cultura Política pela UFMG e em Educação pelo IEC-PUC, sou mestre em Gestão Social e Educação, fui professor dos colégios Bernoulli, Santo Agostinho, Loyolla e vice-diretor do Colégio Tiradentes - Central; coordenador do Colégio Magnum - Cidade Nova. A informação que julgo realmente relevante, e é como eu me apresentaria, é que sou Herberton Sabino, mais conhecido pelo apelido de Pinta, professor de História, filho caçula da Martinha do Sabino e apaixonado pela minha Bom Despacho.
Obrigado e fraterno abraço, seu eterno aluno,
Herberton Sabino – Pinta

 

Que Padre Pedro, hoje aos 95 anos, é uma das pessoas mais queridas e admiradas de Bom Despacho, todos nós, seus contemporâneos, o sabemos. É possível se achar quem aponte nele algum defeito, mas suas virtudes são maiores e sempre exaltadas pela população. E sua grande e marcante qualidade, às vezes despercebida, vai aqui redescoberta e exaltada, como símbolo do grande ser humano que ele o é. Segundo seu amigo, o professor Heberton Sabino, o Pinta, uma de suas grandes marcas de humanismo é a capacidade que ele tem de saber escutar. Vamos aqui registrar a capacidade escutatória de Padre Pedro.

Lembranças do Padre Pedro

Pedro já é um bom nome de padre.

Nunca conheci na cidade alguém que se lembrasse dele senão como padre.

Mesmo os que na infância o conheceram, parece, tiveram a memória obscurecida pelos anos da batina.

Indiferente às críticas que a ele fazem, nem Cristo a todos agradou, ou aos valores reconhecidos, o que me encantou no Padre Pedro foi sua virtude divina de ouvir.

Era capelão na vila militar onde nasci e vivi parte de minha infância. Meu pai, o Major Sabino, vez ou outra entrava na casa do padre para prosear. Lembro-me bem da cena. Meu pai sentava em uma cadeira com a perna cruzada, mantinha o corpo magro e esguio dentro da farda amarrotada. Bebericava a pinga do padre e conversava.

Padre Pedro estava sempre deitado na rede. Dele só despontava do pescoço pra cima, feito um busto. A gola grande e dura da camisa servia de moldura para o rosto comprido, branco e magro. Na outra extremidade aparecia o pé escondido pelo sapato preto ou pela meia, invariavelmente marrom. Lembrava a ideia que se faz da postura de um defunto nordestino. Eventualmente esticava o braço para fora e com um dedão teso impulsionava a rede como quem quisesse dar cadência à conversa. Assim ministrava seu curso de escutatória. Vez ou outra eu, menino, entrava na casa do padre e presenciava a cena. Padre Pedro me mandava pegar algum doce que havia na cozinha e em alguns minutos meu pai dispensava-me com o olhar ou com algum recado desnecessário para minha mãe.

Visitei sua casa algumas outras vezes quando adolescente e adulto. Óbvio, estava em todas essas vezes desnorteado. Saía de sua casa leve, não por ter confessado ou por suas palavras, mas por seus ouvidos.

De vez em quando me dá uma vontade de entrar na casa do padre. Mas, na cidade grande, nenhuma casa parece do padre, nem as paroquiais.

Imagino que Deus irá me receber assim, deitado na rede à sombra, Ele me fará sentar, comentará coisas sobre o clima tentando me deixar mais à vontade, falaremos de amenidades como cinema, futebol, amigos e parentes em comum. Confessarei casos engraçados. Sentir-me-ei-me em casa. Perdoado.



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