iBOM | Nossas crianças e suas pérolas encantadoras!



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Bom Despacho (MG), 19 de novembro de 2017

Nossas crianças e suas pérolas encantadoras!

Meus filhos Roberta, Bruno e Tadeu ainda pequenos
Publicado em 17/10/2016 21:37:39

TADEU ARAÚJO - Em homenagem às crianças, selecionei alguns casos interessantes que elas costumam dizer com muita graça ou com suas saídas espertas, filosóficas e cheias de poesia.

A rolha e o vento

Rita, com seu irmão caçula, dirigia-se apressada até a fazenda do Antônio Domingos e dona Felicidade, na Limeira. Iam buscar o leite que ganhavam do fazendeiro, diariamente, para o sustento de sua pobre família. O menino muito irrequieto brincava com a rolha de cortiça, no bico da garrafa. No puxa-empurra, a rolha acabou caindo dentro da garrafa. Ritinha era muito brava. Ia ter xingos e tapa na orelha pra valer. Joãozinho pensou rápido e apresentou seu álibi:

-Rita... Rita....

-Que foi, sô! – respondeu ela impaciente.

- Cê sabe aquela ventania que deu ali atrás, na curva da estrada?

E a menina, sem nem pensar, disse:

- Sim...Sim, e daí?

- E daí que ela foi tão forte que empurrou a rôia pra dentro da garrafa...

 

A bota e o bode

Nos anos 80, havia uma propaganda da bota marca Sete Léguas, na televisão, que meu filho Bruno, com três anos e meio adorava ver. Na telinha, um menino corria com um grande e feroz bode atrás dele, querendo pegá-lo. Mas não o pegava , porque a bota, como a do gato da história, era mágica. Assim o cabritão não conseguia alcançá-lo.

Ana Tércia, minha irmã, vendo a atração que ele tinha por aquela publicidade, prometeu:

-- Bruninho, em seu aniversário, vou lhe dar uma bota dessas de presente. Você quer?

E o Bruno de pronto lhe pediu:

- Cê me dá o bode também?

 

Faustina da Lé e o cãozinho sem-vergonha

Padre Augusta tinha como fiel auxiliar na Igreja Matriz, cuja construção ele liderou, nos anos de 1920 e 30, em Bom Despacho, a Faustino da Lé. Uma mulher, tipo popular, conhecida de toda a Bom Despacho, com cujas bravatas, ele se divertia. Faustina vigiava a casa de Deus, para que nela não ficasse nem uma mulher vestida com roupa que ela não julgasse decente. Dizem que as tirava da fila de comunhão, beliscava-lhes os braços de roupas sem manga. Vestido curto, nem pensar. Faustina ralhava com elas e dizem que as fazia ir a casa trocá-lo por um mais comprido.

Faustina tinha ojeriza mortal de cachorro na igreja. Ela os enxotava imediatamente pra fora.

Certa vez, naquele tempo, os “Assunçãs”, grande, rica e tradicional família de Bom Despacho, reuniram-se para uma festa familiar. A certa altura, resolveram apresentar um sarau. Meninos e meninas apresentavam graciosas poesias ou cantigas infantis e bem comportadas, próprias da época: “Batatinha quando nasce, se esparrama pelo chão, mamãezinha quando dorme, põe a mão no coração”. “Cai, cai balão!” “Vem cá Vitu”! “São João está dormindo, mas não ouve, não! Acordai, acordai São João! ”Chiquinho caiu no poço!”, etc, etc...

Muitas crianças se apresentaram com gosto e graça e eram aplaudidas por todos.

O pequeno Ricardo, irmão do padre Robson, filho do Raimundinho e da Dona Maricas, foi instado a participar. Ele não se fez de rogado. Levantou-se, postou-se na frente do respeitabilíssimo público e declamou seus inocentes versinhos:

“Cachorro entrou na igreja.

Faustina mandou pra fora!

Cachorro sem-vergonha,

Peidou perto de Nossa Senhora!”

 

O rrrobo mau

(Rrrobo é pronúncia infantil para lobo)

Amélia era irmã do João Beba e da Luísa do Cabo Orlando Severino. Já viúva, faleceu repentinamente, deixando seis crianças órfãs. Entre eles os dois mais pequeninos: o Hélio e a Diva. Meus pais os acolheram, aos seis, temporariamente em nossa casa, na Praça São José. Uma noite, as duas crianças, já deitadas numa cama no chão, ao lado da cama de minha mãe, a luz apagada, a Diva começou a chorar muito assustada.

Minha mãe perguntou:

- Que foi, Diva?

- É o Helinho, Dona Neném. Ele tá me fazendo medo. Tá falando:

- É o rrrobo (Lobo). Diva... é o rrrobo!

Minha mãe passo um sabão forte no menino, com a braveza que lhe era peculiar. O Hélio não tugiu nem mugiu. Silêncio total. Tudo calmo. De repente quem começou a chorar foi ele.

- O que é agora, perguntou impaciente, Dona Neném

E ele muito assustado:

- Eu tô com medo, mãe! ( Ele aprendera a chamá-la de mãe!

- Medo de quê !

- Medo do rrrobo, mãe.

 

No enterro do tio

Após o sepultamento de um tio, o filhinho de uma amiga sai do cemitério agarrado nas mãos dela e indaga:

- Uai, mãe, ele vai ficar aqui. Não vai voltar pra casa com a gente não? Aqui não tem televisão, como ele vai fazer pra ver jogo do Galo? E comida, a senhora vai trazer pra ele. E se chover, ele vai ficar todo molhado?

E a mãe ante a inocência do filho, ante os mistérios da vida e da morte, ante o ser e o não ser, chorou não sei se pelo fim do irmão, ou pelas indagações precoces de seu menino.

 

A grandeza de uma mãe

Estávamos eu, a Geni e o meu filho Tadeu, então com três anos e pouco, no grande passeio defronte a Santa Casa. Ele então olhou para aquela calçada tão ampla, olhou para a mãe dele e disse, dando lhe a medida de mãe que ela tinha no coraçãozinho dele:

- Este passeio é grande igual mãe.

 

Rodrigo, Ricardo e o Papai Noel

O Rodrigo e Ricardo, então com 4 e 6 anos respectivamente, estavam em casa sozinhos, quando a mãe deles chegou, a Tita do Vicente Anacleto. Encontrou o Rodrigo num choro, num pranto de fazer dó. Ao ver a mãe entrando, ele foi logo desabafando:

- Mãe, bate no Ricardo, xinga ele, põe ele de castigo.

A Tita logo lhe perguntou por quê. O Rodrigo então desabafou toda a causa da mágoa com o irmão, ainda soluçando explicou :

- Ah! mãe, o Rodrigo falou que o Papai Noel não existe, não. Que no Natal quem dá presente pras crianças não é nada de Papai Noel. São os pais da gente.

 

Leitora precoce

Certa vez ganhei da Emater cerca de vinte envelopinhos de semente de hortaliças diversas, com o nome estampado em cima e, debaixo, gravuras de tomate, alface, cebolinha, beterraba, couve, cenoura, salsa, etc.

Eu pegava a Roberta no colo e os 20 envelopes. Então eu passei a apresentá-los salteados e vi que ela aprendera o nome de todas as hortaliças. Eu acreditava ser pelas figuras. Mas um dia eu a peguei com os envelopes dobrados e falando os nomes neles escritos. Passei a lhe mostrar só as palavras e ela lia o nome certinho de cada hortaliça. A Roberta estava lendo e continuou a ler muitas outras palavras que eu lhe apresentava daí pra frente. .. Detalhe, ela tinha só um ano e meio de idade.

 

Cocó dormiu não!

O Nando, filho do Maurício e da Sônia (2 anos) perdeu o sono. A mãe começou a niná-lo. Cantou cantigas e modinhas... E nada, ele de olhos arregalados. Meia noite velha, ela foi para a sacada do apartamento e lhe pedia:

 - Dorme, meu filho. Seu pai já dormiu, sua irmã também ... os anjinhos, os gatinhos, os passarinhos, a noite e as estrelinhas. Todos dormiram. Só você é que não dormiu.

De repente, um galo nalgum quintal, lá nas lonjuras da cidade, cantou: cocoricó!

Nando desperto, no colo da mãe falou:

- Ouviu, mamãe, o cocó também num dormiu não !

 

Ensinando à vovó

Saulo, filho do Maurício e da Francisca, desde pequeno apreciava usar as palavras certas na hora e no lugar certo. Dona Neném, sua avó, já passava dos 80, assistia à televisão, sentada num sofá a distância do aparelho. Logo o Saulo chegou e ela aproveitou para pedir-lhe um favor:

- Saulo, apaga a televisão pra vó.

Antes de atendê-la, ele deu-lhe deu uma lição de aprimoramento vocabular:

- Ô vó, num é apagar não, é desligar...  desligar,viu, vó!

Observação: Todos os meus personagens de hoje têm, menos o Saulo, 30, 40 anos de idade ou cerca disso. Saulo é universitário, Bruno, promotor. Ricardo, militar, Tadeu, médico, Rodrigo, advogado. Hélio e Diva comerciários (creio que aposentados) Roberta, funcionária federal. Do Nando e o menino do enterro ainda é muito criança.

Tadeu Araújo é professor e escritor



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