iBOM | Não à cultura do estupro: a culpa nunca é da vítima



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Bom Despacho (MG), 19 de novembro de 2017

Não à cultura do estupro: a culpa nunca é da vítima

Imagem ilustrativa
Publicado em 07/06/2016 13:47:46

DÉBORA RODRIGUES - Precisamos conversar sobre o estupro coletivo que aconteceu na semana passada. Para quem não ouviu falar (acho difícil), uma adolescente de 16 anos foi estuprada por 33 homens em uma comunidade do Rio de Janeiro. Sim, 33. A jovem conta que se lembra de num dia estar na casa de uma pessoa com a qual ela se relaciona há três anos e no dia seguinte acordar em outra casa com um homem embaixo dela, outro em cima e dois a segurando. Quando conseguiu se soltar, notou que no local havia 33 homens armados com pistolas e fuzis.

A jovem disse que foi embora no mesmo dia, um domingo, e que na terça voltou ao morro para procurar seu celular. Que não denunciaria o estupro se não fosse por um vídeo e fotos suas vazadas na quarta, dia 25. Estava com vergonha. Assumiu que usa droga mas contou que no dia do estupro não havia consumido nada.

É essa a versão da adolescente. A versão em que incontáveis pessoas não acreditam e questionam. Pessoas que viram o vídeo onde é inquestionável a violação do corpo dela.

No vídeo, homens riem, filmam a garota desacordada, mexem em suas partes íntimas que estão machucadas. Como alguém pode ver isso ou saber do ocorrido e ainda duvidar que houve estupro?

Existem pessoas manipulando o corpo de uma mulher desacordada e visivelmente dopada e vulnerável. Mesmo diante das imagens, pessoas são capazes de culpar a vítima. Dizem que ela foi mãe aos treze anos, então quis. Dizem que ela frequentava o morro, então quis. Dizem que usava droga, então quis. Dizem que ela transava com tudo mundo, então mereceu. Dizem que ela usava roupa curta e frequentava baile funk, então estava procurando. Dizem que por suas postagens no Facebook era vagabunda, então quis.

Quando aprenderão que a culpa NUNCA é da vítima? Em um estupro a culpa é sempre do estuprador. A vítima pode postar o que quiser em suas redes sociais, usar roupa curta, frequentar qualquer lugar, ter relação com quantos homens for, mas, quando ela disser NÃO, o corpo dela deve ser respeitado em QUALQUER situação, ainda mais quando ela é incapaz de responder por si. Dói ver pessoas culparem a garota mesmo diante de imagens tão covardes.

Ainda não foi provado se realmente os 33 homens mantiveram relação sexual com a jovem. Falta muito a ser esclarecido, é fato, mas jamais podem dizer que a jovem não foi violentada.

A impressão que tenho é a de que algumas pessoas pensam que por causa da postura da adolescente ela merecesse ou procurou o que lhe aconteceu. Essas pessoas devem entender que postura ou comportamento algum jamais farão uma pessoa querer, procurar ou merecer ser estuprada. A adolescente foi invadida, humilhada, exposta. A lembrança disso jamais será apagada. A ferida aberta não cicatrizará e reabrirá cada vez que alguém duvidar de sua dor e de que desde que nasceu ela é vítima de sua condição de mulher. O modo como cada um age é reflexo de tudo que passou.

Não à cultura do estupro! A culpa NUNCA é da vítima.

Débora Rodrigues é psicóloga e conselheira tutelar em BD



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